FILO 2014 - Um 'luto' artístico
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Elaborar a perda de um ente querido não é uma tarefa fácil para ninguém. Mas, no caso da atriz e diretora Janaina Leite, de São Paulo, a eminência da morte do próprio pai acabou transformando o luto em objeto artístico, motivando-a a uma intensa pesquisa dramatúrgica com traços autobiográficos, durante sete anos, que resultou no documentário cênico "Conversas com Meu Pai", que será apresentado neste sábado e domingo, às 21 horas, na Usina Cultural, como parte da programação da 46ª edição do Festival Internacional de Teatro (Filo).
Depois de sair de casa quando a atriz tinha apenas 15 anos, seu pai acabou se reaproximando anos mais tarde, após descobrir um câncer na laringe em 2007. Em um longo processo de tratamento, que acarretou em uma traqueostomia, e no seu falecimento em 2011, filha e pai tiveram que aprender uma outra forma de comunicação, já que quase na mesma época ela descobriu ser portadora de uma doença degenerativa que causou grave perda auditiva. Entre dezenas de bilhetes escritos pelo pai e registros desse processo (60 horas de vídeos e áudio), um material repleto de crises que podem permear a vida de qualquer pessoa e traz uma reflexão que vai a fundo na relação entre pais e filhos.
Atriz e uma das fundadoras do consagrado Grupo XIX de Teatro, de São Paulo, que já trouxe para o Filo os premiados espetáculos "Hysteria" e Hygiene" (inesquecíveis, devo dizer), Janaina já adianta que a montagem não segue uma linha melodramática. "Isso não teria sentido. Não quero que as pessoas sintam pena. O objetivo é falar do drama em si para ressignificá-lo e lembrar que algumas coisas não se fecham por si só. O meu interesse estético é pelo fluxo da vida", afirma Janaina, em entrevista por telefone. "Não há o sentido de 'superação'; a intenção é falar do processo de elaboração de uma crise, dar forma à vida, à experiência. É um convite a isso; o perdão fica subentendido, no ar, entre os silêncios", complementa.
Após passar por cirurgia auditiva e utilizar atualmente aparelhos para melhorar a capacidade auditiva, ela também teve que aprender a lidar com essa nova história, em um processo de elaboração de luto que ainda parece estar em andamento, até mesmo dentro de um viés artístico. Para dar forma dramatúrgica a tantas emoções pessoais, ela contou com texto de Alexandre Dal Farra, que acabou se tornando seu marido. "O papel dele foi fundamental para dar forma e um distanciamento à obra", admite a atriz.
Na montagem, o público poderá assistir à três versões da história, como se fossem cúmplices ou testemunhas desse relato de vida. Como parte do cenário-instalação, numa grande tela são projetadas sequências aleatórias do material em vídeo captado por anos pelo cineasta Bruno Jorge. Remetendo a um depósito, o cenário de "Conversas com Meu Pai" é composto de papéis e objetos como plantas vivas, uma vitrola e uma piscina de plástico, uma espécie de representação dos fragmentos da vida comum que a todo momento podem ser ressignificados.
SERVIÇO
"Conversas com Meu Pai", de Janaina Leite (São Paulo/SP)
Quando Sábado e domingo, às 21 horas
Onde Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4.159)
Quanto R$ 25 (inteira) e R$ 12,50 (meia-entrada)
Pontos de venda Bilheteria do Filo (R. Mato Grosso, 310 Royal Plaza Shopping), das 10h às 22h (segunda a sábado) e das 11h às 20h (domingos e feriados) e pelo site www.diskingressos.com.br


