FILO 2011 - Em busca de um tempo perdido
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Ana Paula Nascimento <br>Reportagem Local 
Em plena madrugada, três chapeleiros-cientistas - Chico, Dante e Rouca - encontram-se numa antiga fábrica onde trabalharam por muitos anos para construir o que eles chamam de ''o chapéu perfeito''. Não estão sós. Contam com o auxílio de uma jovem aprendiz, Pao. Este é o início da peça ''O que Seria de Nós Sem as Coisas que Não Existem'', do Lume Teatro, de Campinas (SP), que será apresentada hoje e amanhã, às 21 horas, no Teatro Vila Rica. Os ingressos estão esgotados.
O espetáculo transita entre o sonho e a realidade porque a matéria-prima da encenação baseia-se nas memórias de antigos empregados de uma fábrica de chapéus fundada em Campinas há quase um século. Hoje, a empresa utiliza-se do artesanal e da modernidade tecnológica. No cenário, muitos chapéus e vapor de água para representar a arte trabalhosa - e cada vez mais rara - de fabricar chapéus de pelo de lebre e lã.
Dos depoimentos recolhidos junto a esses aposentados, muitos fatos permanecem vívidos, mas é inevitável a ação do tempo sobre eles. Vêm à tona revestidos de um encantamento natural. Do mesmo modo as imagens dos amigos, histórias das relações entre patrão-empregado, a sociedade da época, os costumes, a diversão. ''É impressionante ver a dedicação dessas pessoas, que chegaram a trabalhar até 50 anos na fábrica'', conta a atriz Raquel Scotti Hirson, que semelhante ao restante do elenco integra a companhia teatral há 18 anos .
Essa geração de trabalhadores foi testemunha de mudanças que alteraram a geografia da cidade, os costumes, a tecnologia. Segundo o Lume esses remanescentes de uma outra época ''hoje procuram por sua identidade perdida entre os anos antigos e os tempos modernos. Esse mergulho no passado permite que se descubra uma nova cidade e uma nova fábrica de chapéus a partir do olhar de quem a viveu, sonhou, amou e construiu''.
''O nosso espetáculo fala das utopias, dos sonhos, do desejo de atingir a perfeição, que é inatingível, mas que nos move. Também aborda a passagem do tempo, o envelhecimento e a importância de passarmos para frente o conhecimento que possuímos para que ele possa continuar vivo'', declara Raquel.
A encenação de ''O que Seria de Nós...'' segue uma trilha em parte semelhante ao que havia sido realizado em 1999 com ''Café com Queijo'' (apresentado no Filo), baseado em histórias e canções recolhidas em vilarejos distantes do Amazonas, Goiás, Tocantins, Minas Gerais, São Paulo. Desta vez o olhar não foi tão abrangente, mas igualmente profundo: trouxe das lembranças de operários da localidade um universo onde se abriga uma Campinas - ou uma vida - que não existe mais.
Ficha Técnica
- O que Seria de Nós Sem as Coisas que Não Existem, do Lume Teatro (Campinas/SP)
Criação e direção - Norberto Presta
Elenco - Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini
Classificação - Teatro adulto
Faixa etária - 14 anos
- O que Seria de Nós Sem as Coisas que Não Existem, do Lume Teatro (Campinas/SP). * Ingressos esgotados.
Quando - Hoje e amanhã, às 21h
Onde - Teatro Vila Rica (R. Piauí, 211)


