Com enfoque no potencial cruel do ser humano, o espetáculo do Ballet de Londrina ''A Sagração da Primavera'' faz estreia nacional amanhã, às 20h30, no Teatro Ouro Verde, quando acontece a abertura oficial do 43º Festival Internacional de Londrina, que será realizado até o próximo dia 26. Os ingressos já estão esgotados.
Antigo sonho do coreógrafo Leonardo Ramos (atual secretário de cultura), a montagem faz uma releitura da obra homônima fundadora da modernidade e que rompeu definitivamente com a tradição da arte no século XX.
O enredo, relativamente simples, é baseado em uma antiga lenda russa, narrando a imolação de uma virgem, oferecida aos deuses da primavera em troca da fertilidade da terra. A jovem eleita dança freneticamente até a morte. As inovações, entretanto, residiam na forma de apresentar o ritual pagão ao público burguês parisiense extremamente conservador. Com música de Igor Stravinsky e coreografia de Vaslav Nijinsky, o balé estreou em Paris na noite de 29 de maio de 1913.
Na versão da companhia londrinense, joga-se luz sobre as sombras da crueldade e da violência e a intenção é atualizar uma história tão antiga quanto o percurso do homem na Terra. ''A reflexão sobre a crueldade nunca esteve tão atual, principalmente em tempos que as pessoas chegam a sair às ruas para comemorar a morte de alguém, mesmo que seja o Bin Laden, e têm dificuldade em compreender as causas das minorias, que na verdade são a maioria'', ressalta Ramos.
A coreografia dá continuidade à pesquisa de Ramos sobre a exploração da horizontalidade e de novos eixos de apoio e equilíbrio na locomoção dos bailarinos - característica que já ganhou status de ''linguagem'' dentro de sua obra e da companhia.
Outro atributo que se consolida na nova montagem é a utilização de uma obra inspiradora para uma criação coreográfica original - procedimento de sucesso desde ''Decalque'' (2007), concebido a partir do roteiro de ''Romeu e Julieta''.
A música composta por Stravinsky subordinava melodia e harmonia ao ritmo. Seu andamento era assimétrico e complexo, com acentos perturbantes. Na dança, Nijinsky igualmente inovava ao introduzir tremores, espasmos e contorções na sequência dos dançarinos, que também golpeavam com os pés um palco acostumado à leveza das sapatilhas.
Na montagem do Ballet de Londrina, Ramos optou por uma versão não orquestrada da partitura de Stravinsky. Ela é executada por quatro pianos, que fazem o papel de todos os outros instrumentos. O cataclismo sonoro que brota do timbre pianístico, porém, logo encontra complementação na percussão dos corpos em choque com o tablado ou no sopro ofegante da respiração dos bailarinos.
Para tanto, o elenco desdobra-se em formações - ora individuais, ora coletivas; ora sincrônicas, ora tenazmente díspares - que ocupam principalmente os planos médio e baixo. A conjugação de corpos estendidos horizontalmente faz lembrar a geografia da natureza em constante transformação e em feroz avanço sobre si mesma. Há a dominância de quedas e lutas corporais, sem que para isso os bailarinos precisem elevar-se do solo em grande medida.
Em Sagração há clara ambivalência entre o masculino e o feminino. O confronto entre animus e anima chega a cabo pela devoração desta por aquele, num nítido exemplar do furioso desejo da natureza frente à sedução de uma virgem. Leonardo Ramos amplifica o significado da feminilidade, dedicando sua versão às mulheres, como ''símbolo de todas as minorias''.
Ao modo de uma Guernica de Picasso (obra pictórica que inspirou o coreógrafo), a montagem do Ballet de Londrina parece desenhar-se em linhas rígidas e monocromáticas. O figurino em tons de bege cobre os dançarinos para mostrá-los. Estes homens primordiais, vestidos pela nudez de suas próprias peles, movem-se num cenário vazio, recoberto apenas pelo linóleo preto. Tais elementos (ou ausências) evidenciam o primitivismo e a universalidade do tema.
As cenas do palco são duplicadas e invertidas pela colocação de espelhos na parte alta. A economia nos aspectos figurativos, entretanto, é compensada pela explosão simbólica da movimentação coreográfica. A dança parece contar, por si só, a história de crueldade, ao passo que propõe uma linguagem própria para narrá-la.
''Não tenho estado com muita esperança em relação ao ser humano, mas como precisamos continuar vivendo, acho importante procurarmos formas de sermos melhores, de superar as crueldades que ainda cometemos no nosso cotidiano'', pontua Ramos.
O espetáculo deverá entrar em temporada no Circo Funcart, em agosto, antes de seguir por turnê nacional. O elenco é formado por Alessandra Menegazzo, Alexandro Micale, Bruna Martins, Bruno Calisto, Carina Corte, Cláudio de Souza, Gláucia Leite, José Maria, José Ivo, Nayara Stanganelli, Marciano Boletti, Viviane Terrenta.
Serviço
- A Sagração da Primavera, da Companhia Ballet de Londrina
Quando - Amanhã, às 20h30
Onde - Teatro Ouro Verde (R. Maranhão, 85), em Londrina
Quanto - Os ingressos estão esgotados, mas os interessados podem tentar fila de espera no dia. Caso sobrem lugares, serão acomodados gratuitamente.

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