FILO 2007 - Púcaro delirante, absurdo e irônico
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quarta-feira, 13 de junho de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A realidade afirma sempre que existe, mas não podemos acreditar nela porque deseja nos levar a um rumo de certezas, que podem não se confirmar, como acontece em ''Púcaro Búlgaro'', espetáculo com única apresentação hoje, às 20h30, no Teatro Ouro Verde, no 39º Festival Internacional de Londrina (FILO). No romance-em-cena de Aderbal Freire-Filho, esse é um percurso sem saída para os personagens, que se multiplicam ao sabor da obra de Campos de Carvalho.
O romancista se traduz em um famoso desconhecido, amado pela classe artística e, do qual, o diretor emprestou as palavras, sem desprezar nenhuma vírgula ou ponto, conservando as reticências das imagens delirantes.
É o mesmo processo de criação que esculpiu ''A Mulher Carioca aos 22 anos'', em 1990, partindo da adaptação de um romance na íntegra para chegar num gênero dramático e épico, com uma linguagem inovadora. Depois de ''A Mulher'' - consagrada com o Prêmio Shell - vieram outras adaptações, entre as quais, ''O Que Diz Molero'', de Dinis Machado, que ao estrear tinha cerca de 4 horas de duração.
''O Púcaro...'' estreou em 2006 e, o sucesso da peça, ajudou a tirar a pá de terra sobre o romancista, tio de Mário Prata que, numa crônica sobre o funeral do tio disse que não tinha gente para segurar o caixão. ''Apesar do sucesso de 'Molero', não conseguíamos patrocínio e, em dois meses e meio, o espetáculo estreava, ao contrário de 'A Mulher...''', que teve um tempo de ensaio de um ano e meio. Os primeiros 30 dias, perdemos tentando descobrir quem fazia o que na peça e onde se passava'', lembra o ator Augusto Madeira.
O elenco ainda traz Ana Barroso, Gillray Coutinho, Isio Ghelman e Sávio Moll. O cenário é assinado por Fernando Mello Costa, com figurino de Biza Vianna e iluminação de Maneco Quinderé. O lugar em que a peça se passa estava o tempo todo dentro do livro de Carvalho - o apartamento de Hilário.
Carvalho escreveu o texto em 1963, época em que a cabeça do mundo estava na lua e a sua conquista. Púcaro é uma espécie de vaso, que o personagem vê pela primeira vez em um museu de história natural.
A visão confunde a realidade de Hilário, que não acreditou no que viu e, no vórtice do conflito, separa da mulher, fica em crise existencial durante um ano e meio até resolver procurar um psicanalista - que põe a chave na fechadura para os delírios do personagem ao perguntar se ele já tinha ido à Bulgária.
Hilário anuncia no jornal uma seleção de candidatos à expedição absurda, onde o jogo de palavras é o instrumental que corta ao meio, com o fio da comédia, os 50 personagens que os cinco atores interpretam.
O elenco fica à mostra na troca de roupas sem que seja confundido com os personagens que, no palco, estão dispostos a servir ao surrealismo. ''São soluções mais do que simples criação, mas exigem bastante do grupo.
Todos os atores são Hilário, que mesmo sendo interpretado por um ator em determinado momento, tem que dividir o espaço com outros personagens. ''Uma coisa que aprendi com Aderbal é não fugir dos problemas. Ele não preparava os ensaios, que se traduziam em um grande exercício ao ter que dizer textos em terceira pessoa em primeira pessoa, que é uma disputa entre o épico e o dramático. Também trabalhamos com um volume enorme de texto, focado na palavra. Se muda uma vírgula que seja, estamos mexando no estilo'', explica Madeira.
''Púcaro...'' é uma comédia que o público não pode desgrudar a atenção da primeira linha ao ponto final dos personagens que, em Aderbal, nunca perdem a humanidade - uma realidade que pode ser uma simples farsa.


