FILO 2007 - O polêmico direito à terra
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quarta-feira, 20 de junho de 2007
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
Embora os tempos não sejam característicos à militância política, algumas linguagens artísticas reascendem certos ideais. No teatro, por exemplo, a Cia. Latão traz à tona pensamentos de Bertolt Brecht, referência universal da dramaturgia política do século passado, com ''O Círculo de Giz Caucasiano''. O espetáculo estreou ontem e será apresentado novamente hoje e amanhã, às 20h30, no Espaço Petrobras, da Casa de Cultura.
''A Cia., que completa dez anos em 2007, nasceu em torno de um projeto de estudo das obras de Brecht e da dramaturgia. Até 1998, a gente não tinha feito nada que o envolvesse. Na verdade, este espetáculo surgiu a partir de uma reavaliação do grupo, de sua própria história'', apontou Sérgio de Carvalho, diretor da encenação.
Talvez um dos elementos mais impactantes seja a recriação do prólogo que, segundo Carvalho, ultrapassa a mera atualização de tempo. ''É uma montagem livre em relação a original. Eu reescrevi os provérbios do ato do duelo, por exemplo, ou seja, fizemos algumas mudanças estruturais'', disse.
O início da peça apresenta uma interação em vídeo com participação de um grupo de crianças e adolescentes pertencentes ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). ''Escolhemos um grupo com o qual já havíamos realizado uma oficina de teatro. O interessante é o fato de ser um assentamento que apresenta mini-comunidades e não micro-propriedades'', disse.
Na sequência, tem início a fábula sobre a criada Gruxa que decide abrir mão de sua vida para cuidar do filho de um governador que fora assassinado, e cuja mãe o abandona após a revolta local. ''Ela não consegue se livrar desse menino, inclusive a gente cita a frase 'Terrível é a tentação da bondade', pois alguns laços são estabelecidos entre os dois'', acrescentou Carvalho.
Abordando a terra como foco central, ''O Círculo'' propõe reflexões sobre sua ocupação - se justa ou legal. No prólogo original, a discussão se passa em torno de dois grupos de camponeses soviéticos que disputam a posse daquela propriedade: quem merece são aqueles que nela trabalham ou os antigos que a abandonaram? ''É uma injustiça quando dizem que esse texto envelheceu. Apesar de o padrão ideológico do Brecht ser de outra época, ela possibilita esse olhar contraditório. A peça não pressupõe a guerra? Ela não pressupõe um aceleração de um capitalismo destruidor? E o desejo quase improvável de igualdade? Ou seja, não está fora do nosso quadro atual'', ponderou Carvalho.
O texto original foi escrito entre 1944 e 1945 durante o período em que Brecht esteve exilado nos Estados Unidos. Nos anos 60, o poeta anticomunista Manuel Bandeira fez a tradução que, segundo o diretor, ficou com a ''cara'' de Bandeira. ''Quando ele traduziu essa peça, ele ficou maravilhado. O Bandeira conseguiu fazer essa aproximação de sensibilidade com a nossa experiência social'', lembrou.
''O Círculo'' apresenta três horas de duração e 11 atores em cena. Segundo o diretor, a peça necessita de seu próprio tempo para desenvolver a narrativa. ''Diferente do cinema. Essa construção de um tempo coletivo é importante para a respiração do espetáculo. Mas a aceitação tem sido boa e ninguém se desliga durante a encenação. A peça é linda'', declarou. A direção musical foi assinada por Martin Eikmeier e traz 21 canções executadas ao vivo por dois instrumentistas, que se revezam entre piano, rabeca, viollon cello, entre outros. Imperdível para quem aprecia narrativas épicas. Porém, má notícia aos que deixaram para comprar ingressos de última hora: estão todos esgotados.


