Quando a cidade recebe um festival, logo é submetida ao olhar atento de quem dele participa. Seja qual for a manifestação artística em questão, é o olhar da arte que filtra. Quem vem de fora, vê com os olhos detalhados da novidade. Quem é daqui, se vê convidado a rever o trivial. Lá no Jardim dos Pássaros, por exemplo, na Zona Norte de Londrina, os adolescentes do Colégio Estadual Professor José Carlos Pinotti foram convidados a colocar esse filtro de arte nos olhos.
Participaram de uma oficina de fotografia que integra a programação dos ''Projetos de Maio'', do FILO. O resultado pode ser apreciado neste final de semana, no Espaço Petrobras, que funciona na Casa de Cultura da UEL.
''Dez alunos da escola receberam máquinas fotográficas descartáveis para fotografar o Ribeirão Lindóia e seu entorno. Foram dadas algumas aulas sobre fotografia e eles saíram para fotografar. O resultado foi bastante interessante e, além da exposição no Espaço Petrobras, vai ilustrar o livro sobre os 10 anos da escola'', explicou o coordenador da oficina, o fotógrafo Walter Ney. A oficina já tinha acontecido também na edição 2006 dos ''Projetos de Maio'', que são ações socioculturais desenvolvidas com o festival.
Para os jovens, a prática foi reveladora e ensinou a ver o que já olhavam todos os dias. ''Acho que o bairro ficou mais importante agora. Eu passei a reparar em várias coisas boas e em outras que precisam melhorar'', afirma a estudante Ana Flávia Alves de Souza, de 11 anos. Para Letícia Valéria Brandão, de 12, a experiência lhe apresentou o Ribeirão Lindóia. ''Nunca tinha fotografado e nunca tinha ido até o rio, mesmo morando perto dele. Gostei de fotografar, porque dá para mostrar a cidade.''
Para Claudemir Tibúrcio Ramos, aluno do 1º ano do Ensino Médio, a oficina foi ''bacana, porque ajudou a despertar a criatividade''. E onde ela estava até a oficina acontecer? ''Não sei, mas a criatividade já estava dentro da gente'', ajudou Ana Flávia. Já a colega deles, Larissa Souza, de 11, defende que aprender a fotografar ajuda mesmo é a ter paciência. ''Porque, às vezes, a gente tem que esperar para conseguir tirar uma foto bonita. Agora me sinto mais paciente, até para ouvir a explicação dos professores na sala de aula'', ri timidamente.
Sem vestígio de timidez, quem também ri, só que na Região Central de Londrina, é a graciosa Renata Hazi, de 25, aluna do Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos (ILITC), onde durante as duas primeiras semanas deste mês foi realizada a oficina de teatro ''Movimento Expressivo''. ''Este ano acho que aprendi a ser menos ansiosa. Antes ficava querendo saber qual seria a minha vez de entrar em cena.''
Ainda bem que a jovem atriz aprendeu a esperar. No espetáculo encenado por ela e seus colegas - todos com deficiência visual - Renata canta e emociona em uma cena solo. A peça foi apresentada neste sábado, também no Espaço Petrobras, e se chama ''Em terra de cego, quem tem olhos, é cego''. ''Este ano trabalhamos temas que, de alguma forma, remetiam às lembranças deles na cidade. Desde a dificuldade de se locomover até os cheiros de Londrina'', explica a coordenadora da atividade, Ceres Vittori Silva.
Ela ainda completa que um dos objetivos do espetáculo, além de trabalhar o movimento expressivo dos atores, era mostrar a visão do cego sobre Londrina. ''Fizemos um trabalho de consciência corporal que vai ajudá-los no dia-a-dia, mas o importante é eles também poderem mostrar o que sentem sobre a cidade.'' Exemplo disso foi a constribuição de Flávio Silva.
Ele quem lembrou do cheiro de café que garante ainda sentir. ''Quando me perco pelo centro e ninguém me ajuda, se sinto o cheiro verde do café, sei que estou perto da rodoviária velha.'' O que ele não gosta é de se perder perto do bosque da Região Central. ''Lá na verdade não dá para se perder né? O cheiro das pombas não deixa.''
Além dos projetos de teatro e fotografia, outras ações foram realizadas nas primeiras semanas do Festival. Ao todo foram seis atividades dentro dos ''Projetos de Maio'', que levaram novas percepções a vários bairros da cidade. As verbas para as atividades fazem parte do orçamento geral do FILO e, este ano, devem girar em torno de R$ 60 mil, segundo o diretor do festival, Luiz Bertipaglia.
''Os Projetos de Maio surgiram em 98 com o objetivo de levar cultura aos lugares onde acreditávamos que ela não chegava. As atividades começaram a dar certo e cresceram. Teve ano que chegamos a ter 15 oficinas, mas na verdade isso não importa. Se uma criança se tornar artista a partir desta oportunidade, para nós já valeu todo o trabalho e investimento.''

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