FILO 2007 - Mentiras absorvidas no cotidiano
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de junho de 2007
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Muitos podem discordar que a falta da verdade não invalida o amor, sentimento que, muitas vezes, é alimentado na boca com doces mentiras.
O que nem todos enxergam é que podem estar abraçados a ''Amores Surdos'', nome da peça que o grupo Espanca!, de Belo Horizonte (MG), estréia hoje, com reapresentações amanhã e domingo, às 20h30, no Teatro Marista, dentro da programação do 39º Festival Internacional de Londrina (FILO).
Com a sutileza do texto de Grace Passô, que não deixa nunca de atirar à queima roupa no lirismo, vendo ele gritar de dor, enquanto a dramaturga assopra, ''Amores Surdos'' provoca as relações humanas e desfaz a crença de que uma meia verdade não serve a um grande afeto.
Para isso, Grace, que também atua no espetáculo ao lado de Gustavo Bones, Marcelo Castro e Paulo Azevedo, além da participação de Mariana Maioline, como atriz convidada, escolheu contar a história de uma família.
Tudo isso sem esconder nada do espectador que, na primeira cena, fica sabendo o que acontecerá daí por diante - primeira indicação das metáforas que acompanham a peça, já que na realidade podemos prever onde algumas situações ou decisões podem nos levar.
A família da montagem não é difícil de encontrar, sendo formada por um pai ausente, uma mãe zelosa, um caçula com problemas respiratórios e mais quatro filhos.
É sob esse teto que todos eles se olham e não conseguem se enxergar, vivendo mais das mentiras que o cotidiano conta para eles - o que de certa forma não invalida o amor.
Espanca! tem uma história recente na teatro ao ser criado em 2004, mas a proposta teatral contemporâneo e o texto substancioso chamou a atenção da crítica.
''Amores Surdos'' venceu o Prêmio Estímulo às Artes, da Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes 2005.
O espetáculo de estréia ''Por Elise!'', apresentado no Fringe, em Curitiba, e no FILO, em 2005, conquistou os prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e o Shell de Melhor Dramaturgia, indicado também na Categoria Especial pela criação e concepção. A peça entrou no ranking da Revista Bravo! entre os 100 melhores espetáculos de artes cênicas produzidos nos últimos oito anos no Brasil, ocupando a 67 posição.
Em ''Amores Surdos'', o grupo optou pela direção de Rita Clemente, que na opinião de Grace, abriu uma janela ao seu texto.
''O distanciamento do olhar dela deu a possibilidade de clareza, com uma espécie de terceiro olho. Quando você escreve está inserido no seu universo e, por mais que se utilize de técnicas de dramaturgia, não consegue um distanciamento'', afirma Grace, revelando que pretende transformar ''Por Elise!'' em filme. A peça deve ser registrada em DVD, ainda sem data para lançamento.
Para o ator Paulo Azevedo, o trabalho do Espanca! também é resultado da experiência individual dos integrantes, que caminham ainda por um lugar que não conhecem, apesar da segurança com que falam sobre essa trajetória inicial.
''A gente vem se construindo, vivendo dessa dúvida. Como não temos um tema de pesquisa definido, vamos trabalhando o presente'', acrescenta Grace, que aposta na realimentação do grupo com várias linguagens.
''Amores Surdos'' não é uma peça que fala somente sobre a dificuldade em se comunicar, mas o quanto podemos ficar longe da verdade. O que não impede de vivermos abraçados a um amor que ''espanca, mas é doce''.


