Ser bom pode ser tão absurdo quanto ter afeição pela crueldade e, se não fosse assim, Caim não teria matado Abel ao enxergar a maldade no desprezo de Deus. Nem Caim ou Abel e Deus acertam as contas em ''Entre Diluvios'', que a companhia espanhola La Chana Teatro apresenta hoje na 39 edição do Festival Internacional de Londrina (FIL0).
O espetáculo será reapresentado amanhã e sábado, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo, mas afinam um espetáculo de humor e irreverência, através da manipulação de objetos.
Abel era pastor e Deus atentou para suas ofertas. Ao contrário, Caim, um lavrador teve a sua oferenda rejeitada. Aí a bondade e a maldade brincam de ser a outra, quando vamos além do texto sagrado em direção às relações humanas na peça.
Sem querer ferir os brios cristãos, mas andando descalço sobre a poesia, fazendo o mínimo barulho para despertar a comicidade - e nenhuma ira - o ator e diretor da peça, Jaime Santos, lembra que o bem na Bíblia aparece muito pouco.
''Deus acaba sendo um ser autoritário, destruidor, que não perdoa, não cumprindo as suas promessas'', argumenta, Santos, brincando ao questionar a escolha de Moisés para liderar o povo, sendo ele gago.
''Como alguém gago iria se colocar no lugar de Deus para falar ao povo?'', completa o ator, que sozinho em cena vai criando esse mundo em que objetos comuns do cotidiano, como penicos, vasos e pedaços de toco vão empilhando questões universais.
''Entre Diluvios'' foi um dos três espetáculos que abriu, na semana passada, o Festival Internacional de Teatro de Bonecos, em Belo Horizonte, e o idioma espanhol não foi obstáculo para o público compreender, o que todo mundo sabe, vive no dia-a-dia ou até tem vergonha de revelar aos outros e que faz parte das relações humanas.
''A peça foi criada a partir de uma instigação por teatro de objetos. Queria trabalhar mais do que textos, argumentos clássicos conhecidos, que fazem parte da humanidade. Na Bíblia encontramos vários desses arquétipos'', afirma o ator.
Caim e Abel caberiam em uma só pessoa, como realmente acontece com o bem e o mal, que dividem sempre a mesma casa.
Entre Deus e Sodoma, Santos vai do divino a alguém que nem dá para saber quem é e que, geralmente, estranhamos em nós ao revelar a sua porção má.
Santos começou a trabalhar com o teatro de bonecos aos 16 anos e, em 1987, em Salamanca, criou a companhia com a esposa Aurea Pérez Santos. Ele conta que levantou um dia e escolheu o nome inspirado em uma canção folclórica espanhola. Também significa um apelido das mulheres chamadas Sebastianas.

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