''UTI não é lugar de palhaço'', disse a médica, severamente. ''Nem de crianças'', respondeu Michael Christensen. O diálogo aconteceu em meados dos anos 1980, quando Christensen, do conceituado Big Apple Circus de Nova York, dava os primeiros passos da Clown Care Unit, da qual é fundador. Depois de participar como convidado de um evento para cardíacos, o grupo acabou caindo nas graças (literalmente) do hospital nova-iorquino, que pediu que continuassem por mais seis semanas. ''Estamos até hoje'', conta Hilary Chaplain, do CCU.
Lá se vão 17 anos, com presença em 17 hospitais em nove cidades norte-americanas com a participação de 85 palhaços. ''Os novos hospitais sempre oferecem resistência por conta de experiências ruins que tiveram como quando o circo chega na cidade e os palhaços vão fazer visitas e acabam extrapolando. Mas eles (hospitais) acabam gostando'', explicam.
Contar a origem do CCU é importante para traçar o panorama do setor, já que pelos próximos dias, Londrina (não-oficialmente) pode se considerar a capital mundial dos palhaços de hospital. Além de Hilary Chaplain, estão na cidade Wellington Nogueira, Thaís Ferrara e Soraya Saíde, do Doutores da Alegria, o elenco de Payamédicos, liderado pelo diretor José Pellucchi, além dos pés-vermelhos do Plantão Sorriso.
De 1988 a 1991, o ator Wellington Nogueira trabalhou integrou a trupe do CCU no papel de Doutor Calvin, besteirologista e PhD em bobagem. Ao voltar ao Brasil, no que ele chama de ''mitose'', trouxe na bagagem a vontade de lançar um programa-irmão (colegas da França e Alemanha também retornaram aos países de origem com a mesma idéia) por aqui. Nascia o Doutores da Alegria, que em setembro completa 13 anos. ''Treze está sendo um número de sorte. É a primeira vez, por exemplo, que somos convidados a participar de um festival de teatro'', diz Nogueira.
''A gente contracena com a vida real e transforma isso num espetáculo. Quem está começando nas artes cênicas tem que saber que tem uma opção além da televisão, teatro e cinema que é a vida real'', explica o ''doutor''. O trabalho de Wellington e cia. acabou influenciando e inspirando o surgimento do Plantão Sorriso, com oito anos de estrada, ou melhor de hospitais. Em 1998, o grupo londrinense recebeu o título de Utilidade Pública Municipal e Estadual.
Na vizinha Argentina, os palhaços de hospital ainda estão iniciando carreira. O grupo Payamédicos tem dois anos e o diferencial é que a maioria dos participantes é de agentes de saúdes (os grupos-colegas são formados apenas por atores e palhaços). Surgido de uma ramificação do Grupo de Teatro da Faculdade de Medicina, que tem seis anos, o Payamédicos não só ''atende'' crianças, como também adultos. Duas vezes por semana visitam hospitais infantis e outras duas vezes por semana vão até os adultos.
''Estamos no momento de começar a ter remuneração pelo nosso trabalho'', explica a psicóloga-atriz Andrea Romero. Até então, o Payamédicos tem se apresentado sem receber por isso. Vive de doações e, algumas vezes, das bilheterias dos dois espetáculos montados pelo Grupo de Teatro da Faculdade de Medicina. São essas duas montagens ''Miss Vacú'' e ''Cartón, Cartón'' que entram em cartaz hoje e amanhã no Filo.
Para as crianças, Miss Vacú, ou traduzindo, Miss Vacina é um espetáculo de cerca de 30 minutos onde o bem e o mal são mostrados. No caso, a idéia da mocinha Vacina e dos vilões como Capitão Tosse, Professor Muco e Madame Febre, é justamente ensinar a importância da vacinação para os pequenos. A ''guerra'' é travada no espaço, num planeta chamado Padecium, o planeta das doenças.
Já em Cartón, Cartón o tema é mais adulto, mas ainda assim não seja de ser didático. ''O espetáculo tem dois anos e o José (Pellucchi) escreveu numa época de crise na Argentina em que se viam muitos catadores de papelão nas ruas. Hoje o número é menor, mas não dava para mudar os personagens. Mas a temática ainda é a mesma, da discriminação'', explica Andrea Romero.
Na montagem, o grupo argentino retrata a situação dos catadores de papelão discriminados em hospitais e por médicos. A idéia é fazer o público refletir sobre os problemas do sistema hospitalar no país vizinho. Ao final das apresentações na Argentina, o grupo sempre abre um debate tanto para as crianças quanto para os adultos. ''Aqui não vamos fazer isso por causa do idioma'', explica Andrea.
No dia 20 e dia 23, a vez é do ator Luiz Carlos Vasconcelos, que não trabalha em hospitais, mas há 25 anos roda o Brasil com seu palhaço Xuxu. ''Vem chegando um palhaço'' nasceu da experimentação durante a carreira de Vasconcelos, conhecido por seu trabalho no cinema como em Eu, Tu, Eles e Carandiru.

Serviço:
- Miss Vacú e Cartón, Cartón Grupo de Teatro da Faculdade de Medicina de Buenos Aires. Elenco: Veronica Provenzano, Violeta Perez Brombere, José Luiz Pellucchi, Andrea Veronica de Garcia Cozzi, Carlos Frederico Codina e Juan Pablo NuÀez. Direção: José Pellucchi.
- Vem chegando um palhaço Luiz Carlos Vasconcelos. Criação e interpretação: Luiz Carlos Vasconcelos.
- A Flor Mágica de Timbuktu Plantão Sorriso. Elenco: Aneliza de Paiva, Carolina Padilha, Rafael Arruda, Ricardo Gimenes, Sérgio Mello e Simone Andrade. Dramaturgia, direção e sonoplastia: Maurício Arruda Mendonça. Operadora de som: Emília Miyazaki. Cenário e figurino: Plantão Sorriso. Produção: Luciana Bazzo
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