Filo - Loucura pouca é bobagem
Até agora foram nove dias de apresentações que contemplaram teatro, música e dança. A arte e a loucura unidas no Filo, é claro. Primas irmãs no âmbito da criatividade com que os atores nos contemplam. Até domingo a cidade é deles. Até domingo tudo pode. Até segunda ordem Londrina é um palco em que também atuamos como expectadores, soltamos nossos bichos do cativeiro da rotina. A cidade permissiva não se choca com a nudez, embala o insólito, brincadeiras de bom tom. A folia instaurada em carnaval no mês de junho. Dá um frio na barriga mas esquenta o coração. Entramos de carona. Páginas e páginas de jornal testemunham a fantasia. A arte e a loucura moram bem aqui ao lado. Focamos os olhares míopes nesta síntese de estéticas para ver o circo pegar fogo, até o fim. Mais quatro dias e completamos a volta neste admirável mundo novo do teatro que mais uma vez revisitamos. Até domingo tudo pode.(Célia Musilli)
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Loucura pouca é bobagem
Cesar AugustoAtor do grupo Cacahuete pede para mamar e a diretora do Filo, Nitis Jacon, não se fez de rogada: quem chora, mamaFrancelino França
Como existem loucos em Londrina! Todos camuflados, loucos enrustidos. Mas foi só aparecer aqui um outro bando de loucos, lá da França, para que todos se revelassem, saíssem do armário. Neste Festival de Teatro, cruzei com esses malucos pelo calçadão, num enterro. Eles bagunçaram o centro da cidade, andaram de um lado para outro com um caixão. Os aposentados e os boys pareciam entender francês. Bonjour, bonjour. Papa, maman. Um cara me perguntou: É teatro ou religião?. Eu emendei: É teatro, mas esse negócio de teatro parece que é religião também. Roubaram a bandeira do Brasil, coisa sagrada, lá do Bradesco. Um cara engravatado saiu correndo do banco atrás do pendão. Eles quiseram enterrar o caixão na vertical, num buraco da Sanepar. Saculejaram o defunto. Vieram para radicalizar com a nossa cidade. A massa humana foi crescendo, andando atrás deles. Fizeram até sexo na praça, ao lado da Catedral. Vai um londrinense, pé vermelho, fazer isso? Teje preso, é o que vai ouvir. Só sei que naquela manhã, os doidos pegaram o ônibus 106, Guilherme Pires, que vai pro H.U. Se mandaram com caixão e tudo. Seria bom se encontrassem um psicólogo por lá. Nem sei se esse tipo de loucura tem cura.
Na feira livre, dia santo, acho que Corpus Christi, os loucos de carteirinha baixaram por lá, de Zorba. Pensa que alguém chamou a polícia? Neca. Eles peladões, num frio do caramba. Dona Terezinha, feirante antiga, não parava de olhar. Foram reclamar com o segurança da feira, sabe o que ele me disse? Vou fazer o quê? Prender? É tudo funcionário da UEL. É o fim do mundo. É muito feio demais, o cara com uma bunda desse tamanho e a barriga maior ainda, de cueca, sapato e meia, no meio dos alfaces. E a mulher de calcinha e sutiã! Tinha uma velhinha que levou um choque, com medo dos doidos encontrarem com a procissão do bispo Dom Albano.
Paulo WolfgangAtor do Cacahuete esbanja beleza na vitrine, quem viu não acreditava: ele competia com Tiazinha de lingerieAí, eu queria ver mais. Todo dia seguia os feiosos franceses. Quando os vi de fraldão feito nenê, eu pensei. Sorte deles que podem chorar à vontade e todo mundo dá o maior apoio. Quem não queria sair correndo gritando pelo Calçadão? Só pelas contas do final do mês. O Belinati até que podia deixar. Cada maluco tem o seu lugar. Aí já fiquei até amigo dos caras, eu gritava sobe aí gordo. Ele subia. Entraram nos Móveis Brasília, surrupiaram um velotrol. Depois, eles zuaram na cabeça do burro sem rabo. Coitado do catador de papel. Eles cantavam um tá tá tá tá, todo mundo repetia. Como toda a cidade já estava enlouquecida, ninguém ficou mais chocado quando trocaram a fralda do grandão, ali na praça da Bandeira. Teve até um casamento, no Zerão. Encheram a cara dos noivos de tudo quanto é coisa. Aí aprendi o nome do grupo, é Cacahuete. Sei lá o que significa isso. Lascaram tanta porcariada na cara dos noivos que dava dó. A mulher, pra variar, mostrou os peitos. Já acostumou, coitada. Será que lá na terra deles eles tiram a roupa assim?
Nem as Casas Pernambucanas foi perdoada. Uma loja tão tradicional. Um velho, de uns 130 kg, competindo com a Tiazinha na vitrine. Misericórdia, jogou até beijinho pra mim. O maior mico foi outro cara, com uns dentões largados fora da boca, limpando a vitrine só com um avental na frente. Do lado de fora, o vendedor de cocada ficou, sei lá, meio atrapalhado. O pior foi o padre na outra vitrine. Ele olhava para as meninas e erguia o negócio no meio das pernas dele. Jesus! O povo não quer ver gente feia não. Para ver tribufu a gente olha no espelho de casa. Mas quero ver se um londrinense gostar da idéia e sair por aí mostrando o que todo mundo esconde. É xilindró na certa. Ainda bem que a gente pode, de vez em quando, dar umas risadas com os loucos que aparecem por aqui. Senão...





