Jovens ricos, fúteis, que levam uma vida sem sentido e fazem parte de uma turma que aluga uma laje para ''brincar de pobre''. Este é o perfil dos tipos que entram para a galeria de personagens do dramaturgo londrinense Mário Bortolotto na peça ''A Frente Fria que a Chuva Traz'', que será encenada pelo grupo Cemitério de Automóveis hoje e amanhã, no Festival Internacional de Londrina (Filo). Com apresentações às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo, o espetáculo é um questionamento do modo de vida de jovens da classe média-alta.
Escrito em 2003, o texto de Bortolotto que também assina direção, sonoplastia e iluminação mostra um grupo que organiza festas em lajes para ''imitar'' a realidade dos grandes centros. Eles contratam um segurança (Vitor, vivido por Bortolotto), para que ninguém da periferia possa entrar, e um pagodeiro, conhecido como Rapozão (Gustavo Haddad), para animar a festa.
Haddad, que faz sua estréia no papel em Londrina, explica que Rapozão é um típico novo rico, ex-morador da periferia. ''Ele só quer beber uísque do melhor e diz que o que faz é samba de raiz'', destaca o ator, que depois de participar de oito novelas e outros trabalhos em teatro diz ter se identificado com o processo e com a objetividade de Bortolotto.
Da festinha também faz parte a junkie Amsterdã (Fernanda D'Umbra), que se envolve com os ricos para poder ter acesso a drogas. De acordo com Bortolotto, é ela quem motiva o conflito da peça. ''A (atriz) Junia Bush faz uma patricinha que também questiona esse tipo de vida'', conta o diretor. O dono da laje (Wilton Andrade), um traficante, é o outro representante da periferia ao lado do segurança Vitor. O espetáculo estreou em São Paulo em outubro do ano passado.
Fernanda D'Umbra diz que a peça apresenta a periferia ''do ponto de vista equivocado dessa gente rica, num barato inconsequente, como se fosse uma grande idéia''. O dramaturgo conta que escreveu ''A Frente Fria que a Chuva Traz'' depois que leu a respeito do assunto em jornais do Rio de Janeiro e São Paulo. ''No Rio, chegaram a fazer isso até mesmo na Zona Sul. Essas festas de 'patrícias' geralmente rolam domingo à tarde, depois da praia'', conta. ''Quis colocar em conflito os dois mundos. Isso me interessa mais do que simplesmente mostrar a periferia'', diz Bortolotto.
Mário Bortolotto, que foi indicado ao Prêmio Shell de Melhor Autor por essa peça, também buscou elementos para escrever o texto na relação que a mídia e o próprio meio artístico criam com as pessoas que passam a se destacar na carreira. ''Sempre fui de periferia. E gosto de beber cerveja no boteco. Quando a gente vai ficando mais conhecido, começa a ser convidado para umas festas que dão até ânsia de vômito. Só de ouvir as conversas. Parecem pessoas bem-educadas, mas esse tipo de educação eu dispenso. Nunca te convidam porque simpatizaram ou gostaram de você. É quase sempre um jogo de interesse'', dispara.
O Cemitério de Automóveis, fundado há 22 anos em Londrina, está radicado em São Paulo desde 1996. Depois de um ano administrando um espaço próprio na capital paulista, o grupo entregou o teatro e agora trabalha em um local da prefeitura de São Paulo, o Teatro Alfredo Mesquita, na zona norte da cidade. O Cemitério de Automóveis é formado por Bortolotto, Fernanda D'Umbra, Wilton Andrade e Gabriel Pinheiro, que neste espetáculo atuam ao lado de atores convidados.

Serviço:
- A Frente Fria que a Chuva Traz Espetáculo do Cemitério de Automóveis, de São Paulo. Texto, direção, sonoplastia e iluminação: Mário Bortolotto. Assistência de direção: Paulinho Faria. Elenco: Fernanda D'Umbra, Francisco Eldo Mendes, Gabriel Pinheiro, Gustavo Haddad, Junia Bush, Maeve Jinkings, Maíra Chasseraux, Mário Bortolotto, Marisa Lobo Viana e Wilton Andrade. Figurino: Ofélia Lott e elenco. Cenário: Piero Amaducci.

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