Brasília, 29 (AE) - Se houver justiça neste mundo, e juízo por parte do júri, os principais prêmios do Festival de Brasília, que serão entregues amanhã (30) à noite, no Teatro Nacional, deverão ficar com "Santo Forte", de Eduardo Coutinho
e "São Jerônimo", de Julio Bressane. São não apenas os dois melhores filmes da amostragem de 12 longas-metragens proposta este ano, mas são, também, aqueles que, além de cumprir suas propostas estéticas, conseguem ir além delas.
"São Jerônimo" capta, expressa e induz o sentimento religioso não apenas por seu tema explícito, mas por sua estrutura de trabalho com o tempo e com a imagem. "Santo Forte" radiografa não somente a articulação de uma comunidade restrita com o mundo místico, mas toda uma teia de relações sociais que se tecem em torno dele e, de certa forma, o superam. Dois filmes sobre religião, na superfície, mas que falam com o transcendente, intelectual num caso, social no outro.
É difícil, mas não impossível, que, não havendo acordo entre os membros do júri, saia um tertius, uma solução negociada
uma terceira via, que, no caso, poderia ser a eleição de "Hans Staden", um filme mais limitado, mas que impressionou alguns espectadores qualificados pelo modo rigoroso e respeitoso com que resgataria uma dimensão esquecida do passado colonial brasileiro. São opiniões, mas que podem valer como orientação diante de um resultado incerto. De qualquer forma, é pouco provável que o difícil trabalho de reconstituição de uma época e de um ethos, levado a cabo pelo diretor Luiz Alberto Pereira, saia do festival de mãos abanando.
É mais fácil fazer prognósticos em algumas categorias. Por exemplo, dificilmente a estatueta de melhor atriz deixará de enfeitar a estante de Fernanda Torres, estupenda no duplo papel que vive em "Gêmeas", adaptação de Nélson Rodrigues dirigida por seu marido Andrucha Waddington. Para ator, as apostas se dispersam mais. Pode dar gente conhecida, como Othon Bastos, por "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", ou Antônio Fagundes, que está em "O Tronco" e "No Coração dos Deuses". Ou premiar desconhecidos, como Everaldo Pontes, de São Jerônimo, ou Kadu Carneiro, que dá vida a "Cruz e Sousa - o Poeta do Desterro", além de ter seduzido parte da platéia feminina por atributos que vão além dos seus dotes de interpretação.
O resto é lotérico, porque raramente júris escapam ao processo de distributivismo e negociação interna. A não ser quando há desnível acentuado entre os competidores e escolhe-se uma linha única de premiação. Assim, filmes corretos como "Milagre em Juazeiro e "Gêmeas", ou interessantes, mas irregulares, como "Joaquim Bolívar" e "Cruz e Sousa", podem beliscar algum troféu em outras categorias.
Entre os curtas-metragens em 35 milímetros, as escolhas devem se concentrar em "Passadouro", de Torquato Joel, "Rota de Colisão", de Roberval Duarte, "Deus É Pai", de Allan Sieber, e "De Janela Para o Cinema", de Quiá Rodrigues. Tudo depende do que irá se privilegiar, a economia narrativa, a agilidade da linguagem, a irreverência ou o lirismo. "Texas Hotel", de Cláudio Assim, prometia muita transgressão, mas acabou decepcionando um pouco.
As maiores chances entre os concorrentes em 16 milímetros parecem se concentrar entre "Bubula, o Caravermelha", de Luiz Eduardo Jorge, "Um Filme de Marcos Medeiros", de Ricardo Elias, ou "Bela e Galhofeira", de Paulo Halm. Os dois primeiros emocionam ao recuperar para o público a memória de personagens como o líder estudantil Marcos Medeiros e o fotógrafo Jesco von Puttkamer. O terceiro destaca-se por sua bem-humorada e inteligente história de um casal em busca de sentido para a existência. É fácil identificar-se com ele, pois cada um de nós vive atrás da mesma coisa.
Festivais nem sempre trazem o que há de melhor na produção de um País. Além disso, costuma-se dizer, também, que, como as revoluções, devoram seus filhos. Isso porque os filmes não são tomados em si, isoladamente, mas entram num processo comparativo que acaba exacerbando seus defeitos e qualidades. Festivais têm, no entanto, a virtude de dar uma visão de conjunto e de momento de uma cinematografia. A opção de Brasília por um formato maior, 12 longas, pode ser questionado - afinal, vários desses filmes parecem dispensáveis. Dessa excessiva tolerância de seleção, no entanto, tira-se um painel bastante abrangente do que se está fazendo no País em termos de cinema.

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