Simone Mattos
De Curitiba
Museu da Imagem e do Som de Curitiba exibe filmes inéditos e proibidos no Brasil de hoje até sexta-feira
Cinéfilos e amantes do cinema não comercial, que costumavam frequentar as sessões de meia-noite nas salas do centro da cidade, poderão relembrar os velhos tempos a partir de hoje. A mostra ‘‘Os Malditos’’, que fica em cartaz até sexta no Museu da Imagem e do Som (MIS), traz a Curitiba cinco filmes proibidos e inéditos no Brasil.
‘‘Eles nunca foram exibidos pelo valor comercial ou pela censura rígida que sofreram na época de seus lançamentos’’, explica o diretor do MIS, Chico Nogueira. ‘‘Quando acabou a censura, os filmes já não interessavam mais’’.
Ele se refere a verdadeiras obras-primas, como a versão original em inglês de ‘‘Trash’’, de Paul Morrisey; a versão em sueco com legendas em inglês de ‘‘I am Curious (Yellow)’’, de Vilgot Sjoman; a versão original em latim com legendas em inglês de ‘‘Sebastiane’’, de Derek Jarman; e as versões em inglês de ‘‘Santa Sangre’’, de Alejandro Jodorowsky, e ‘‘Pink Flamingos’’, de John Waters.
Os filmes foram garimpados por ele em viagens ao exterior e selecionados cuidadosamente. Nogueira acredita que exista um público em Curitiba que ‘‘fique procurando por referências com estas, sem encontrar’’. Sua iniciativa, ao organizar a mostra, tem a intenção de aproximar filmes quase inacessíveis do público que sabe apreciá-los, mas que muitas vezes não tem a oportunidade de viajar para fora do País.
Em sua opinião, o filme ‘‘Sebastiane’’ será o que vai chamar mais a atenção na mostra. ‘‘É um preciosismo de Derek Jarman fazer o filme falado em latim’’, comenta Nogueira. O diretor britânico, que morreu em 1994, causou grande polêmica na década de 70, quando o filme foi lançado, por abordar questões religiosas.
A mistura bombástica de sexo e política, mostrada através de belas imagens em preto e branco, fez com que ‘‘I am Curious - Yellow’’ também ganhasse fama de maldito. No final dos anos 60, o filme sueco foi fortemente combatido em vários locais do mundo onde foi exibido, incluindo os Estados Unidos. No Brasil, a fita nem sequer pode ser mostrada ao público.
Alguns anos atrás, quando Nogueira estava na Alemanha e assistiu à fita ‘‘Santa Sangre’’, em Berlim, o filme chamou a sua atenção, o que acabou resultando na inclusão na mostra dos malditos. ‘‘A obra do diretor chileno, que é mexicano por opção, flerta com o surrealismo’’, comenta. Ele se refere a cenas como o enterro de uma elefanta de circo ou à história de uma malabarista que comete o adultério, tem os braços amputados como punição e continua a se apresentar com a ajuda do filho, que ‘‘assume’’ os seus braços nos shows.
Sobre a obra de John Waters, ‘‘Pink Flamingos’’, Nogueira comenta que o diretor ‘‘usa e abusa do mau gosto’’, numa produção totalmente underground, protagonizada pela travesti Divine. O filme, do início da década de 70, é considerado um clássico na sua carreira.
A mostra conta ainda com ‘‘Trash’’, que compõe a famosa trilogia dirigida por Paul Morrissey. O diretor foi sócio e é considerado uma espécie de afilhado de Andy Warhol.
Além dos filmes incluídos na mostra, Nogueira considera vários outros como malditos. ‘‘Um que eu gostaria muito de exibir, por exemplo, é ‘‘Eraser Head’’, de David Linch’’, confessa. O filme foi lançado nos anos 70 e visto por pouquíssimas pessoas no Brasil.
Os filmes serão exibidos às 19 horas, com entrada gratuita, no Museu da Imagem e do Som (Rua Barão do Rio Branco, 395, fone 323-5382, em Curitiba). Dia 16, ‘‘Trash’’; dia 17, ‘‘I am Curious’’; dia 18, ‘‘Santa Sangre’’; dia 19, ‘‘Pink Flamingos’’; e dia 20, ‘‘Sebastiane’’.

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