Filas fazendo serpentina nos corredores dos cinemas em Londrina. Pais pacientes e suas proles inquietas, namoradinhos curtindo o que é bom e até gente irritada para conviver coletivamente. Os letreiros dos cinemas gritam ‘‘O Senhor dos Anéis’’, ‘‘Harry Potter e a Pedra Filosofal’’, ‘‘Monstros S.A.’’ e ‘‘Xuxa e os Duendes’’. É tempo de férias.
Com tanta gente, os melhores assentos nas salas são disputados literalmente a tapas. Há poucos dias, duas senhoras se engalfinharam e trocaram palavrões por uma poltrona, segundo informou a gerente dos Cines Catuaí Ruth Moreira. Na outra semana, um jovem atirou o lanche literalmente no rosto da funcionária dos cinemas. Tempos quentes, em que todos querem apenas curtir as férias.
Existe um parentesco clássico nesses quatro filmes em cartaz em Londrina, eles são contos de fadas. Os heróis passam por dificuldades quase intransponíveis e ao final conseguem ser salvos por uma força redentora, como assinalou o psicanalista Bruno Bettelheim no livro ‘‘Psicanálise dos Contos de Fadas’’. Os filmes trazem esse emblema. O público pode transferir seus temores para as situações dos personagens. A salvação incondicional chega nos últimos instantes. Afinal, queremos ser salvos após um situação de perigo extremo.
Camufladas nas imagens superlativas dos filmes de férias, subexiste a linguagem simbólica do inconsciente presente nos contos infantis. Os significados emocionais e motivações psicológicas residem na eterna luta entre o bem e o mal.
‘‘O Senhor dos Anéis’’, de Peter Jackson, chega a oprimir pelos efeitos grandiloquentes. É a vida na dimensão que só o cinema pode proporcionar. Todo o imperialismo das imagens com a marca hollywoodiana pode ser conferido nesse filme. A busca pelo elo perdido faz o público prender o fôlego, ficar imóvel nas poltronas. Na sessão da última sexta-feira, na Sala 5 do Cine Catuaí, ouvia-se apenas a respiração ofegante de um jovem obeso e seu celular que tocou duas vezes. Como em todo conto de fadas, não se pode deixar escapar nenhuma palavra – no caso, legenda – ficando todos magnetizados, até pelo olhar magnânimo de Elijah Wood, o herói hobbit Frodo Bolseiro. Entre seres esquisitões, aprende-se que o símbolo de salvação pode ser o da perdição, como tudo na vida.
Então, ir ao cinema nas férias é resgatar o lado criança e acolhedor que os contos de fadas nos reservam. Não é sem razão que os quatro principais filmes em cartaz são povoados por monstros e tem uma coloração sombria. ‘‘Xuxa e os Duendes’’, de Rogério Gomes e Paulo Sérgio, espanta não pelo fantasma ou figuras malignas. Mas pelo grande número de adultos que assistem ao filme (não contando os pais que acompanham os filhos). Por isso que mais de quatro milhões de pessoas foram assistir as duas últimas incursões de Xuxa na sétima arte. A reportagem da Folha2 questionou duas amigas na faixa dos 30 anos: ‘‘o que duas mulheres da idade de vocês fazem no filme da Xuxa?’’. A resposta saiu em forma de pergunta: ‘‘o que um cara da sua idade faz aqui?’’.
Os bancos com encostos muito altos não facilitam em nada a vida das crianças de até três anos. Para poder assistir ao filme só há duas opções. Ou ficar em pé ou no colo dos pais. Como ‘‘Xuxa...’’ é interativa, há um momento em que ela solicita à assistência que acredita na natureza aplaudir. E é prontamente atendida. Kira, a personagem da rainha dos baixinhos, é resultado do cruzamento entre Ana Maria Braga e Dirceu Borboleta. Mas o pior dos piores é Gugu Liberato, que escapou do Sabadão Sertanejo para se transformar num empresário inescrupuloso que se arrepende. No filme, Gugu se mostra tão expressivo quanto uma geladeira.
No mês da fantasia, os efeitos do blockbustter ‘‘Harry Potter’’, de Chris Columbus, chegaram à platéia na sessão do último sábado. Um curto-circuito na fiação que ilumina o caminho no chão do cinema assustou os espectadores. Mas era só para preparar o espírito para as magias que apareceriam nas telas. O garotão Harry Potter, um aprendiz de feiticeiro, representa o típico herói de contos de fadas. Ainda uma criança, vive sob as maldades de uma família exploradora, enfrentando humanos malignos e monstros de três cabeças. No caminho, encontra aliados e faz a platéia compactuar com o triunfo final. Até foi aplaudido.
Janeiro, tempo de se lutar contra o mal. No domingo, enquanto o público esperava iniciar a sessão de ‘‘Monstros S.A.’’, o som de Bee Gees embalava os namoradinhos de final de semana com ‘‘Words’’. Música que não chegava aos ouvidos das crianças. Durante o filme, na platéia, perguntas pipocavam a todo momento. Na cena inicial do filme, Jessica, garota de três anos disparava: ‘‘Mãe, o menino tá dormindo?’’, ‘‘Mãe, ele vai sonhar?’’, ‘‘Mãe, ele não tá respirando’’. Como um autêntica crítica de cinema ela avisa à família. ‘‘Eles são assustadores, mas tem mais medo que a gente’’. Ao final, Jessica saiu aliviada. ‘‘Os monstros não têm mais medo, que legal né pai’’. Mal sabia Jessica que todos saíram preparados para enfrentar os monstros do dia a dia. Inconscientemente aliviados, recompensados e protegidos. Afinal, é preciso conviver com os monstros.

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