São Paulo, 08 (AE) - É uma das maiores obsessões de quem mora nas cidades grandes. Provavelmente a maior, à frente dos problemas com o trânsito, a disseminação do uso das drogas pela classe média, a volta da inflação, o desemprego. Violência. É também com ela que o cinema, refletindo a atualidade do tema, começa a se preocupar. Vários longas-metragens tratam ou irão tratar do tema. São os casos de "Mano a Mano", de Ricardo Nauenberg, que será exibido na sexta-feira na Directv (canal 605), à meia-noite, com reapresentação dia 17 no mesmo horário, como do novo longa-metragem de Paulo Caldas (de O Baile Perfumado"), que leva o sugestivo título de O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas
Será também o mote do próximo longa de Hector Babenco, "Estação Carandiru", que está sendo adaptado do livro escrito pelo médico Dráuzio Varella. É, ainda, o eixo central de um filme já lançado e ainda em cartaz, O Primeiro Dia, de Daniela Thomas e Walter Salles.
"O Primeiro Dia" é inspirado no livro de Zuenir Ventura, "Cidade Partida, e esse fato dá uma pista de entendimento para esses novos filmes que vão surgindo. Segundo o livro, não haverá nenhuma solução real para o problema da violência enquanto a sociedade permanecer dividida do jeito que está. A sociedade é um todo, não contempla divisões estanques e suas partes interagem. No Rio, isso é mais evidente, porque o morro debruça-se sobre a cidade. Em São Paulo, durante muito tempo, a classe média entrincheirada torcia para que a periferia não chegasse perto dela. Chegou. Esse livro - e esses filmes - expressam o desejo inteligente de conhecer o outro, esse outro que não pode ser ignorado ou isolado.
No caso de "Mano a Mano", Nauenberg acompanha o hip op brasileiro que, segundo ele, conseguiu manter a pureza original do modelo norte-americano, cedo assimilado pela indústria fonográfica. O cineasta lembra que o hip hop surgiu como reação das minorias negras à arbitrariedade policial nos Estados Unidos. Funciona como um grito de revolta, que pode ser ouvido, ou ignorado, alternativa que às vezes (nem sempre) é uma opção da sociedade.
O filme enfoca essa força das ruas, dos confins da sociedade, em geral ausentes da cobertura da mídia. Mostra o rap que nasce entre as grades do Presídio do Carandiru, ouve líderes comunitários, conversa com a turma da break dance, investiga o fenômeno das rádios piratas - enfim, tenta entender essa turma, interpretando a arte que fazem como possível instrumento de ação política.
Exemplar - Com "O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas", Paulo Caldas e Marcelo Luna pretendem contar uma história exemplar, acontecida em Camaragibe, bairro periférico da Grande Recife. Dois meninos crescem no mesmo ambiente miserável. Um se torna rapper; outro vira matador profissional. Helinho é o "pequeno príncipe" do título. Está preso, acusado de mais de 70 homicídios. É um justiceiro, como se diz nas quebradas, e só elimina as "almas sebosas", ou seja
gente que, a seu ver, não merece mesmo viver. Seu amigo chama-se Garnizé e integra a banda de rap Faces do Subúrbio, famosa em seu gênero. São duas caras - diferentes, mas não opostas - da tragédia social brasileira. O filme está em fase de finalização. Estará pronto para abrir o Festival do Recife, em março.
Segundo Caldas, "O Rap do Pequeno Príncipe" pretende ser uma "reflexão sobre a violência". "É um assunto tratado de maneira em geral muito sensacionalista pela mídia", diz. "O nosso trabalho deseja ser um retrato sereno sobre as pessoas que estão vivendo a violência". Por isso, acrescenta, o longa-metragem falará de uma realidade brutal o tempo todo, sem precisar colocar na tela, diretamente, cenas cruas e apelativas.
Para o diretor, o filme pode relativizar as opções brutais para o combate à violência, que são reivindicadas por parte da população. "Há como um muro que separa a periferia do resto, e o nosso filme pretente abrir um fresta, mostrando como são as pessoas do lado de lá. Vivem uma realidade para lá de desfavorável, mas também se divertem, amam, criam seus espaços de convívio, produzem uma arte que dá voz aos seus sentimentos.
Paulo Caldas conta que decidiu fazer o filme quando Marcelo Luna lhe contou as aventuras de Helinho. Ele ficou impressionado, achou que ali tinha não apenas uma boa história, mas também um tema que lhe permitiria retratar de modo profundo a sociedade brasileira contemporânea, com suas esperanças e também com suas mazelas. Conseguiu permissão para filmar no presídio e tomou um longo depoimento do matador. Uma entrevista de impacto, de arrepiar, dada por um rapaz de 21 anos, com supostas 70 mortes nas costas e que encara sua "profissão" com toda a naturalidade do mundo. Considera-se um benfeitor da sua comunidade e afirma nunca ter despachado desta para melhor quem não o merecesse.
Mas a biografia de Helinho daria apenas metade da história, segundo Caldas. A outra, o acaso, ou talvez a própria lógica perversa da violência, encarregou-se de fornecer ao artista. Caldas ficou sabendo que Garnizé um dia fora assaltado quando voltava para casa em Camaragibe. Tomaram-lhe tudo o que tinha e o rappeiro ficou na rua, de cuecas. Falta de sorte do assaltante, porque Helinho, o vigilante pequeno príncipe, era admirador secreto do artista e resolveu, por conta própria, vingar a ofensa. No dia seguinte, Camaragibe tinha um motivo a menos para se preocupar. Até hoje Garnizé é agradecido a Helinho. No filme, essa convivência da comunidade com seus protetores extra-oficiais aparece com toda a nitidez. É a face mais visível da ausência do Estado na (in)segurança da periferia
vácuo rapidamente ocupado pelos justiceiros.
Métier - "O Rap do Pequeno Príncipe" segue essas duas vidas paralelas, mas se detém mais na de Helinho, Hélio José Muniz, na pia de batismo. Ele nasceu lá mesmo em Camaragibe, onde exerceu seu métier até ser preso. Filho de dez irmãos, crescido na miséria e no analfabetismo. Adolescente, começou a notar que havia muitos indesejáveis frequentando a vizinhança. Achou que era um dever moral, e ato de cidadania, livrar gente honesta dessa companhia desagradável. Fundou uma instituição que se denomina Os Vingadores. O símbolo deles é uma cruz com um olho atento no meio. Helinho traz esse emblema tatuado no braço. Afirma que fez tudo por "amor à arte", sem receber dinheiro pelos crimes. É uma versão.
Garnizé parece bem diferente. Nasceu e cresceu no mesmo ambiente, mas logo manifestou outros interesses. Tornou-se, como seu amigo, um líder comunitário, só que de índole pacífica. Faz a música nas festas locais, é estimado por todos e se expressa de maneira articulada. É grande admirador de Che Guevara, Malcolm X e Zumbi dos Palmares. Essas afinidades eletivas dizem um pouco do que pensa.
Para Paulo Caldas, essas figuras polarizadas, mas ao mesmo tempo complementares, representam duas reações distintas ao mesmo ambiente miserável, marcado pela miséria e pelo desespero. Um busca a saída pela via direta da violência; outro sublima a brutalidade pela arte. Expressa sua raiva por meio da música, que lhe fornece uma válvula de escape, uma linguagem para soletrar sua impotência e um meio de ganhar a vida. Seria interessante que fosse ouvido, mesmo por quem aprecia melodias mais harmônicas.
Para Paulo Caldas, esse tipo de filme, o seu e o dos outros, marca uma volta ao cinema de compromisso social, aquele interessado não apenas em entreter, mas em produzir uma reflexão sobre o país onde é feito. "As gerações mais jovens têm renegado o Cinema Novo; acho que é hora de elas acordarem para discutir a sociedade em que vivem", diz. Difícil afirmar o contrário.

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