Filmes certos no lugar errado
Enquanto as filas dobram o quarteirão por causa de Titanic, o filme O Canto da Esperança deixou de ser exibido no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina numa sessão de segunda-feira, às 14h30, por falta de público. Em muitas outras ocasiões os filmes do Cine-Teatro Ouro Verde são exibidos para dois ou três espectadores, quando muito. Há algum tempo, neste cinema, as sessões só começavam se tivesse pelo menos seis pessoas para apreciá-las. O jeito era ficar esperando outros espectadores na portaria. Os teimosos chegavam a procurar gente na rua para conseguir quórum.
Hoje os filmes são exibidos até para uma só pessoa. O que não é raro acontecer. A última vez que o jornalista Luciano Bitencourt foi ao Ouro Verde, assistiu sozinho ao filme Noite de Reis, de William Sheakespeare. O publicitário Maurício Meleiro também já passou por esta situação várias vezes.
Ainda na época em que se exigia quórum para as sessões, Maurício Meleiro passou por uma situação irônica. Ficou sentado sozinho em frente ao cartaz do filme que queria assistir: A Estrela Solitária. Não deu quórum e ele foi embora para casa sem ver o filme. Tive que voltar outro dia, conta.
A falta de público no Ouro Verde, na opinião de Luciano Bitencourt se deve a duas questões. Primeiro o preço. Sendo um cinema administrado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), os preços deveriam ser mais baixos, opina. Em segundo, acredita que uma divulgação maior dos filmes traria mais pessoas às sessões.
Maurício Meleiro não acredita que o problema esteja na divulgação. São filmes para um público restrito. Não para a maioria que está mais ligada em produções hollywoodianas, como Titanic, acredita.
Já para Luciano Bitencourt a falta de público não está relacionada ao estilo dos filmes exibidos no Ouro Verde. Não são filmes de vanguarda ou de arte, diz. São filmes do circuito comercial das grandes cidades, complementa. Ele diz que estes filmes deveriam passar até por critérios mais rigorosos de seleção. Uma sugestão do jornalista é que o Ouro Verde aproveitasse este boom do cinema brasileiro para se tornar a sala do cinema brasileiro em Londrina, diz.
O diretor da Divisão de Cinema e Vídeo da Casa de Cultura da UEL, o crítico de cinema Carlos Eduardo Lourenço Jorge cita entre as causas para o público se tornar restrito a questão da divulgação e o espaço físico inadequado. Segundo ele, desde que o Ouro Verde passou para as mãos da UEL, em 1978, a sua característica é não trabalhar com produtos comerciais. Queremos mostrar às pessoas que cinema não é só Hollywood, afirma. Há outras línguas nas telas. Exibimos filmes asiáticos e europeus. Seguindo esta linha, o público, consequentemente, acaba sendo diferenciado.
É um público que vê o cinema não só como lazer, mas como um meio de reflexão, explica Carlos Eduardo. Para conseguir um número maior de espectadores, Carlos Eduardo concorda que uma divulgação mais dirigida poderia atrair o público.
Mesmo investindo em divulgação haveria o problema do espaço físico inadequado. Carlos Eduardo explica que na falta de um Teatro Municipal, o Ouro Verde acaba sendo utilizado para diversos outros eventos - festivais, formaturas, congressos - o que estrangula o período de exibição de filmes. Dos 365 dias do ano, apenas 165 dias são para exibição de filmes, afirma.
A multiplicidade de uso do Ouro Verde acaba descaracterizando o espaço como cinema. Os filmes escolhidos deveriam ser exibidos em salas menores, não em um espaço com 900 lugares. Muitas vezes o público que se interessa por este tipo de filme se sente desestimulado e deixa de vir, porque sabe que vai assistir sozinho ou com poucas pessoas, explica Carlos Eduardo.
Para Carlos Eduardo é necessário criar outro espaço. Ele afirma que já entrou em contato com o secretário da Cultura de Londrina, Alcides de Carvalho, para buscar outra sala de exibição e evitar que estes filmes deixem de ser exibidos. O meu temor é que Londrina acabe ficando sem sala que exiba filmes que não sejam comerciais.(E.P.)César AugustoNo Cine-Teatro Ouro Verde, com 900 lugares, a exibição de um filme
pode ser para um único espectador: falta total de interesseEnquanto os filmes
comerciais lotam
cinemas, espaços como
o Ouro Verde, em
Londrina, sofrem
com a falta
de público para
produções
diferenciadas





