Filmes B, diretor classe A
Telecine 5 exibe, a partir de amanhã, seis filmes de Samuel Fuller e documentário sobre o longa que ele não fez
ReproduçãoSamuel Fuller dirigiu filmes que, durante muito tempo, foram ignorados pelos intelectuais americanosNum dos ensaios de seu livro Os Filmes de Minha Vida, François Truffaut conta que, ao assistir ao drama Proibido (Verboten) - que combina com rara habilidade planos ficcionais com documentários (montados em contraplano) sobre o célebre julgamento de carrascos nazistas em Nuremberg -, percebeu tudo o que precisava aprender para dominar perfeitamente um filme, ritmá-lo, estilizá-lo, fazer surgir a beleza em cada cena sem recorrer a efeitos exteriores ao tema, desembocar na mais pura poesia sem havê-la solicitado. E diz do diretor do filme, o norte-americano Samuel Fuller: ... Fuller não é um primário, é um primitivo; seu espírito não é rudimentar, é rude; seus filmes não são simplistas, são simples e é esta simplicidade que admiro antes de mais nada. Truffaut não foi o único cineasta a louvar o cinema direto e vigoroso do diretor de Proibido, Capacete de Aço, A Lei dos Marginais, Paixões que Alucinam, Agonia e Glória, entre outros pequenos grandes filmes: Godard e Wim Wenders também são fãs confessos de Fuller, e assim também outros diretores que tornaram-se mais conhecidos do que ele.
Nascido em Worcester, Massachussetts, em 12 de agosto de 1911, Sam Fuller foi repórter policial do jornal The Sun, vagabundo que viajava clandestinamente em trens de carga e soldado na Segunda Guerra Mundial. Todas essas experiências, ele as incorporou em seus filmes, de personagens amorais submetidos a situações-limite. Um existencialista cáustico, um vivisseccionista dos sentimentos humanos, dirigiu B movies autorais que durante muito tempo foram solenemente ignorados pelos intelectuais americanos (em grande parte porque foi um adepto das idéias do senador Joe McCarthy, aquele da caça às bruxas). Mas, se foi anticomunista, também abominou os horrores do nazismo e em pelo menos um de seus filmes, O Cão Branco, condenou o preconceito racial. Posições ideológicas à parte, Fuller fez cinema de primeira, que poderá ser apreciado, a partir de amanhã, sempre às 22h, no canal pago Telecine 5, da Net, dentro de uma mostra bastante representativa. Confira os títulos:
- Anjo do Mal (Pickup On South Street, 1947) - com Richard Widmark envolvido numa trama de suspense bem urdida, onde agentes do FBI procuram o ladrão que roubou um microfilme secreto. Também no elenco, Jean Peters e Thelma Ritter. - Segunda-feira, dia 13.
- Baionetas Caladas (Fixed Bayonets, 1951) - com Richard Basehart, Gene Evans e Michael OShea. Basehart (que nos anos 60 seria o almirante Nelson da série de TV Viagem ao Fundo do Mar) é o soldado que, na Coréia, comanda um grupo de infantaria americano. Ótimo drama de guerra. - Terça, 14.
- A Dama de Preto (Park Row, 1952) - com Gene Evans, Mary Welch e Herbert Reyes. Evans é o editor que, no final do século passado, funda uma publicação em Nova York. - Quarta-feira, 15.
- Tormenta Sob os Mares (Hell and High Water, 1954) - com Richard Widmark, Bella Darvi e Victor Francen. Submarino americano ruma ao Ártico em busca de provas de um iminente ataque comunista. - Típico produto da Guerra Fria, mas um filme de ação ok. - Quinta, 16.
- Dragões da Violência (Forty Guns, 1957) - com Barbara Stanwyck, Barry Sullivan e Dean Jagger. A carismática Stanwyck faz a rainha do gado que protege um irmão desordeiro. Incursão de Fuller no território do western, demostra que ele poderia ter sido também um grande diretor no gênero. - Sexta, 17.
- O Cão Branco (The White Dog, 1982) - com Kristy McNichol e Burl Ives. Após atropelá-lo, mulher leva para casa um cão e, após alguns incidentes, descobre que ele fora treinado para atacar pessoas negras. Narrativa muito simples, fazendo lembrar filmes produzidos para a televisão (não por acaso, a Globo chegou a exibi-lo na Sessão da Tarde, em outros tempos). No entanto, a direção de Fuller faz toda a diferença. Como disse Truffaut: Impossível, diante de um filme de Samuel Fuller, dizer: era preciso fazer de outra maneira... - Sábado, 18.
Complementando a mostra dedicada ao diretor, o Telecine 5 exibe no domingo, dia 19, no mesmo horário, Tigrero, o filme que Nunca Foi Feito (1994), do irmão menos famoso do finlandês Aki Kaurismaki, o também cineasta Mika Kaurismaki (desde 1989, radicado no Brasil). Trata-se de um documentário germano-brasileiro-finês sobre o malogrado projeto de Fuller de realizar um filme de aventuras em nosso país, Tigrero, que seria estrelado por John Wayne e Ava Gardner. Wayne faria o papel de um caçador contratado por fazendeiros brasileiros para matar tigres (obviamente, na época, Fuller não sabia que no Brasil não existem tigres, exceto os importados, que podem ser vistos nos zoológicos). O documentário traz uma longa entrevista com o cineasta, concedida numa vila no Mato Grosso ao diretor americano Jim Jarmusch (Strangers Than Paradise, Daunbailó, Dead Man).
P.S.: Embora não fosse ator, Samuel Fuller às vezes era convidado para atuar em algum filme de cineasta mais jovem do que ele e que o admirava. Foi assim em O Estado das Coisas(Der Stand der Dinge, 1982), de Wim Wenders, onde fez, de maneira convincente, o papel de um veterano fotógrafo de cinema. Sua última aparição na tela também foi num longa de Wenders, O Fim da Violência, rodado em 1997, onde interpreta o pai de um dos personagens. Numa das cenas finais, quando se vê aquele frágil velhinho chorando ao pressentir a morte do filho, não há como não se emocionar, especialmente quando se sabe que o próprio Samuel Fuller morreria naquele ano, logo após o término das filmagens.





