São Paulo, 30 (AE) - Os três documentários refletem panoramas diferentes da história da fé brasileira. Abordagens distintas, porque Wolney quer reconstituir a vida de um homem tido como santo, Coutinho fecha seu foco num universo restrito e Dias o alarga para buscar uma visão mais abrangente porém não totalizadora. Os três, porém, convergem na mesma atitude respeitosa com relação à fé. Não olham o crente de cima para baixo, nem o analisam sociologicamente. Há uma distância imensa entre esse tipo de atitude e aquele que os cineastas costumavam ter em relação ao assunto durante os anos 50 e 60.
Em geral, no cinema que poderia ser levado a sério nos anos 50, o tema da religião foi ignorado. É o caso, por exemplo, do seminal "Rio 40 Graus", de Nelson Pereira dos Santos, primeira aclimatação brasileira do neo-realismo italiano e tido como precursor do Cinema Novo. Apesar de as ocasiões se oferecerem repetidas vezes ao longo da ação, nenhuma idéia de conteúdo religioso aparece de forma consistente. Nelson, em várias entrevistas, comenta essa atitude de forma bem-humorada. Segundo ele, os cineastas da época eram tão influenciados pelas idéias marxistas que podiam pisar em despachos nas favelas, sem vê-los.
Anos depois, a religião começa a aparecer no cinema brasileiro, mas sob a forma da alienação, que deve ser superada para que o povo tome consciência de sua situação e possa tornar-se agente da transformação revolucionária. É assim em "Barravento" e "Deus e o Diabo na Terra do Sol", ambos de Gláuber Rocha, e em "Viramundo", de Geraldo Sarno. Mais tarde, depois do golpe militar de 1964, o foco na questão religiosa mudou.
Segundo Jean-Claude Bernardet, em seu artigo "Cinema e Religião" (parte do livro Cem Anos de Cinema, organizado por Ismail Xavier), a percepção muda quando em 1964 o intelectual percebe que não é senhor do processo histórico. Num primeiro momento, ele conduziria pela mão um povo alienado, que não teria autonomia para encontrar sozinho seu caminho de libertação. Quando a História mostrou que não era bem assim, a perspectiva inverteu-se. Cabia a ele, intelectual, seguir o povo, único conhecedor do seu caminho. Portanto, os cineastas começaram a "ver os despachos" nas encruzilhadas do morro.
Nelson Pereira dos Santos, por exemplo, filmou seu "Amuleto de Ogum" dentro de uma perspectiva inversa à de "Rio 40 Graus". O engagé dos anos 50 não enxergava a religiosidade popular. Em meados dos anos 70, o liberal, um tanto desiludido das transformações rápidas, podia construir uma história calcada no misticismo. A religião não é mais ignorada, e nem pensada em termos de alienação. Faz parte da vida cultural do povo e como tal deve ser entendida.
Os globalizados anos 90 talvez passem a ter uma nova atitude em relação às crenças, que ainda não está totalmente perceptível nos novos filmes. Wolney evita a politização intensa do personagem e o trata com imparcialidade. É um narrador neutro. Coutinho flagra a atitude diante da crença como uma espécie de cimento social. Ela encontra função ali onde o Estado falha e se omite. Dias tem a opção mais benévola, procurando, assumidamente, mostrar como as crenças podem ser benéficas para as pessoas.
"Milagre em Juazeiro", "Santo Forte" e "Fé" são filmes sobre religião. Dos três, "Fé" talvez seja o mais religioso. A distinção é importante. (L.Z.O.)

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