Quando abriu o 41º Festival de Cinema de Gramado com "Flores Raras", Bruno Barreto não se cansou de repetir que seu filme não é sobre homossexualismo, embora baseado na história da ligação entre a arquiteta Lota de Macedo Soares e a poeta norte-americana Elizabeth Bishop.
É curiosa a relação da crítica com o filme. Ninguém é mais crítico com o próprio trabalho que Barreto. Ele deve sua popularidade a "Dona Flor e Seus Dois Maridos", que até recentemente - "Tropa de Elite 2" - ostentava o título de maior bilheteria do cinema brasileiro. Para Bruno, porém, seus melhores filmes - os que ele coloca acima da média - são "O Romance da Empregada", "Atos de Amor" (nos EUA) e "Ônibus 174". Talvez, como Barreto diz, no futuro venha a integrar "Flores Raras" ao lote. Para os que não gostam de seu cinema - nem desses filmes -, "Flores Raras" é o melhor filme do diretor.
Não é - mas tem cenas fortes. E já que ele diz que não é sobre homossexualismo, o público pode muito bem se perguntar sobre o que é, então? Ele responde. "Minha mãe (a produtora Lucy Barreto) comprou os direitos e aceitei dirigir, mas durante muito tempo pensei no que seria o tema. É um filme sobre perdas. Baseia-se numa inversão dramatúrgica, a mulher forte que vai se enfraquecendo (Lota) e a fraca que termina por impor sua força (Elizabeth)", diz o diretor.
Gostar ou não gostar do filme e das personagens será uma escolha ou viagem íntima que o espectador terá de fazer. Lota é reacionária, apoia e comemora, para espanto de Elizabeth, o golpe militar. Termina isolada. Mas isso, que faz parte da realidade da história, vem bem depois. As melhores cenas do filme são duas cenas que vêm lá pelo meio. Lota compra uma criança para satisfazer o desejo da ex-companheira de ser mãe. Compra - vai lá, toma o bebê, dá o dinheiro, com a mais aparente, ou completa, das insensibilidades. A cena termina no olhar da mãe que cedeu, que vendeu - para poder dar de comer aos outros filhos. Emenda-se com outro olhar - o de Elizabeth, criança, quando vê a mãe ser arrancada dela e levada como bicho, numa carrocinha que parece de animais, para o manicômio, onde morre. O próprio Bruno Barreto concorda que, inconscientemente, talvez, pode muito bem ter feito o filme por essas duas cenas chaves.

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