Filme tem mais fantasmas do que múmias
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quarta-feira, 16 de junho de 1999
Por Luiz Carlos merten 
São Paulo, 17 (AE) - Procure não esquecer-se disto, quando estiver no cinema: você terá pago para assistir a um filme chamado "A Múmia". Mas ela demora para aparecer. Quase uma hora. Durante todo esse tempo você terá a impressão de estar assistindo a uma versão requentada de Indiana Jones, com Brendan Fraser no papel de Harrison Ford.
É o partido do diretor Stephen Sommers: ele desloca a ação da múmia para o mocinho estilo Indiana Jones. Qualquer espectador que queira fazer uma leitura ideológica do espetáculo ficará horrorizado com o tratamento que o diretor dá aos egípcios: são repelentes, para dizer-se o mínimo. Mas, claro, ninguém vai ver um filme desses por ideologia. "A Múmia é diversão". Só que não é inconsequente. É um filme sob medida para acirrar preconceitos.
A história é uma salada de frutas com os personagens e dinastias do Egito Antigo. Sommers não se preocupou nem um pouco com a veracidade. Mistura faraós com a maior sem-cerimônia, coloca os gatos como guardiães da morte, quando eles eram símbolos de fertilidade, e por aí vai. É outra tolice de crítico: ninguém vai ver um filme desses para ter aula de história.
Então, por que as pessoas vão ver "A Múmia"? Uma boa resposta talvez seja a sessão realizada no fim de semana para o Colégio Bandeirantes. Zorra total: cerca de 800 estudantes quase piraram vendo o filme. Assobios, aplausos, tiração de sarro - valeu tudo. Claro que, nas sessões normais de "A Múmia", não será a mesma coisa. Mas o espírito da coisa é esse.
"A Múmia" tem tão pouco a ver com múmias de verdade que o diretor achou bobagem perder tempo enrolando seu vilão de 3 mil anos com ataduras. Múmia sem atadura não existe. A de Sommers, ao contrário da de Boris Karloff, dispensa os panos para abusar dos efeitos especiais digitalizados. É a razão de ser do espetáculo. Muitos (exagerados) efeitos especiais, com mais fantasmas do que múmias, numa variação de "Poltergeist".
Em princípio, é tudo para ser divertido e nada para ser levado a sério. Só que "A Múmia" não consegue ser o espetáculo engraçado que queria e até deveria ser. Para dizer a verdade, não tem graça alguma. Mentira: a cena em que Fraser faz uma careta e dá um berro para os acompanhantes da múmia e eles retrucam com uma careta maior ainda é, de longe, a melhor do filme.


