Filme sobre Frida Kahlo abre hoje o Festival de Veneza
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de agosto de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Veneza - Oficialmente é a edição de número 59, mas na verdade são 70 anos de história do festival, o que o consagra como indiscutível decano entre as mais importantes mostras internacionais de cinema. Cannes pode deter hoje a supremacia como evento precursor e/ou seguidor das transformações globalizantes que chegaram também à arte cinematográfica, mas Veneza deu a largada, acenando e pontificando de início com o brilho intelectual, o charme mundano e mais tarde, claro, com as inesgotáveis possibilidades de adequar o evento à poderosa indústria do turismo, na Europa economicamente muito mais poderosa do que a produção de filmes de qualquer país.
Não é acidental, portanto, a escolha do filme para a cerimônia de abertura da 59 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica, hoje à noite no Palazzo del Cinema, na ilha do Lido. Em competição, o longa ''Frida'' é uma realização que a princípio se insere naquela conturbada dualidade arte-indústria. Se o argumento seduz crítica e público em busca de reflexão e papo-cabeça - é a cinebiografia da controvertida pintora surrealista mexicana Frida Kahlo -, por outro lado a produção hollywoodiana, com as potenciais concessões que se conhece, deve garantir para este início de festa aquele tempero mundano que favorece manchetes e garante a tietagem.
Além de Salma Hayek no papel-título (e também produtora), estão no elenco e já garantiram presença em Veneza os atores Antonio Banderas, Alfred Molina, Ashley Judd, Edward Norton (marido de Salma e roteirista), Geoffrey Rush e Valeria Golino.
O novo e experiente diretor do Festival de Veneza, Mauritz de Hadeln, esteve nos últimos 22 anos à frente do Festival de Berlim, e é o responsável direto pela ascensão daquela mostra, hoje considerada a terceira na trindade dos grandes festivais. Mas chegou a Veneza trazendo também a fama, depreciativa, de ter transformado a ''Berlinale'' em passarela e vitrine de Hollywood - o certame alemão antecede em algumas semanas a entrega do Oscar. Esperto e precavido, de Hadeln fez o que não se esperava e surpreendeu boa parte da intelectualidade italiana e européia que criticou sua escolha pelo governo de Silvio Berlusconi. A seleção de Veneza-2002 silenciou os detratores e embora tendendo a um certo eurocentrismo - sem dúvida por razões sazonais -, mostrou um senso de equilíbrio, sem privilegiar a ou b, sem dobrar-se a Hollywood ou render-se à xenofobia (há um simpático aceno para o próprio umbigo, mas sem exageros, justo na medida em que se glorificam indiscutíveis lenda vivas da terra (as homenagens aos 90 anos de Antonioni, o Leão de Ouro pela carreira a Dino Risi). Além disso manteve uma segunda mostra competitiva instituída ano passado pelo ex-diretor, Alberto Barbera, mudando apenas o nome do prêmio.
Leia mais sobre o Festival de Veneza na página 3.


