Filme sobre a história do cinema estreia em Londrina
Dirigido por Arnaud Desplechin, filme celebra não só a história do cinema, mas as salas de exibição como espaços afetivos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de março de 2025
Dirigido por Arnaud Desplechin, filme celebra não só a história do cinema, mas as salas de exibição como espaços afetivos
Rodrigo Grota/ Especial FOLHA 

Arnaud Desplechin se tornou um dos grandes nomes do cinema francês contemporâneo desde que “A Sentinela”, de 1992, concorreu à Palma de Ouro em Cannes. De lá pra cá, o diretor de 64 anos realizou ótimos filmes como “Reis e Rainha” (2004), “Um Conto de Natal” (2008) e “Três Lembranças da minha Juventude” (2015), além de outras obras não tão bem sucedidas.
Seu décimo quinto filme, “Loucos por Cinema” (2024, 88 min) estreia nesta quinta-feira (20), em Londrina, com exclusividade no Villa Rica. O filme celebra não só a linguagem do cinema enquanto arte, mas também a sala de cinema como espaço afetivo, social e político no qual espectadores de variadas gerações formam sua visão de mundo e se abrem para novos sentimentos e culturas.
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Misto de ensaio, documentário e obra ficcional, “Loucos por Cinema” acompanha a trajetória de Paul Dédalus, alter ego do diretor que já havia aparecido em filmes anteriores. Aqui ele é apresentado aos 6, aos 14 e aos 22 anos, sempre mostrando como essa relação obsessiva com o cinema formou sua sensibilidade de espectador que algum dia se tornaria cineasta.
APARIÇÕES DO DIRETOR
Com breves aparições de Desplechin conversando com os críticos Kent Jones e Shoshana Felman, “Loucos por Cinema” apresenta um tom nostálgico ao mesclar as narrativas de formação do jovem Paul Dédalus a trechos de filmes clássicos e famosos. Um aspecto positivo é a forma pela qual Desplechin apresenta discursos teóricos sobre cinema de uma forma leve e natural, como ocorre na cena em que três jovens dialogam com uma senhora sobre a teoria do filósofo norte-americano Stanley Cavell.
Cineastas da predileção de Desplechin também marcam presença: no caso de Ingmar Bergman, o jovem Paul Dédalus mente sua idade para poder assistir a “Gritos e Sussurros”. Ao ver a cena clássica em que Erland Josephson descreve a verdadeira personalidade de Liv Ullmann, o jovem fica em êxtase, mesmo sem compreender o subtexto da cena por completo.
Em relação a Truffaut, temos possivelmente a sequência mais bonita do filme: Paul, interpretado agora por Salif Cissé, comenta como ter visto “Os Incompreendidos” mudou sua vida: ele sentiu pela primeira vez que estava pronto para ver o mundo. E ver o mundo, nesse caso, significava fazer um filme. A sequência se completa com a aparição do próprio Desplechin nos indagando: “O que acontece com a realidade quando ela é projetada e exibida?”. A câmera se afasta, Desplechin acende um cigarro, e responde, de forma inconclusiva: “Nosso enigma”.

Menos filosófica que a série “História(s) do Cinema”, de Jean-Luc Godard, e menos inovadora que a série “Viagem Através do Cinema Francês”, de Bertrand Tavernier, a abordagem de Desplechin é mais emotiva e pessoal. Em certo momento, ele presta uma homenagem ao documentarista Claude Lanzmann, falecido em 2018, e autor de “Shoah” (1985), para muitos o maior filme já feito sobre o Holocausto. Nesse momento, Desplechin mostra que o cinema, além de emocionar e potencializar nossos sonhos, foi também uma grande testemunha do que ocorreu nos últimos 130 anos. Por isso o título original em francês com destaque para os ‘espectadores’: ver um filme é também ver o mundo, conhecê-lo, e, em alguns casos, lutar para modificá-lo.


