Filme russo leva o Leão de Ouro
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de setembro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 
Veneza - Só não foi mais surpreendente (para todos) e decepcionante (para os italianos) porque o universal ''O Retorno'' (Vozvrascenje), filme de estréia do russo Andrej Zvjagintsev que levou o Leão de Ouro na principal mostra competitiva, era também apontado desde sua exibição como um dos prováveis vencedores desta 60 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica, encerrada sábado à noite no Lido de Veneza. Porém, para grande parte da imprensa que cobriu o festival, e também para o público, líquido e certo era o bom mas doméstico ''Buongiorno Notte'', de Marco Bellochio, afinal contemplado apenas com um discretíssimo e nada consolador ''prêmio pela contribuição individual de particular relevo'', que reconhece os méritos do roteiro. O ator Luigi Lo Cascio ficou para receber o prêmio, enquanto Bellocchio preferiu ficar longe da polêmica e foi para Roma lançar seu filme.
O juri, presidido pelo cineasta Mario Monicelli, entrou imediatamente em rota de colisão com a opinião pública e privada, a oficial inclusive a RAI, co-produtora do filme italiano, disparou sua melhor munição contra os jurados e por um bom tempo ainda vai ouvir pesadas diretas e indiretas, como aquela colhida logo após o veredito: ''a volta do incrível exército Brancaleone'', referência nada elegante ao bando de vagabundos e estropiados que vagava pela Idade Média no clássico dirigido pelo próprio Monicelli na década de 1960. Grosserias à parte, os jurados, mantendo a tradição generalizada, cometeram alguns enganos. E a paroquial, arrastada, improvisada, patética cerimônia de premiação, conduzida por um inconveniente e mal educado cômico e animador local, um certo Piero Chiambretti, repetiu, a pior, a mesma comédia de erros e gafes de outros anos, a mesma ópera bufa, agora com a permanente e cúmplice presença no palco do diretor da mostra, Moritz de Hadeln. Ao que tudo indica, confirmado para o próximo ano.
Um dos tropeços do júri foi dar o Grande Prêmio (ou Prêmio Especial do Juri, como é chamado em outros festivais) ao filme ''Le Cerf-Volant'' (literalmente ''A Pipa''), dirigido pela libanesa Randa Chahal Sabbag, que perguntou a Bush Jr. porque ela faz parte do ''eixo do mal'' e ele pertence ao ''eixo do bem''. Por mais simpático libelo pacifista que seja, como cinema é muito menor do que ''Um Filme Falado'' de Manoel de Oliveira, um dos maiores injustiçados deste festival, e de vários outros exibidos aqui. Outro escorregão foi o Leão de Prata a Takeshi Kitano como melhor diretor em ''Zatoichi'', um filme nada autoral, apenas divertido. Pensa-se aqui em Tsai-Ming Liang, esquecido pelo júri, mas felizmente não pela crítica. Para botar um pouco de ordem na casa, o júri da Federação Internacional da Crítica Cinematográfica (FIPRESCI) elegeu ''Bu San'' (Goodbye Dragon Inn) como o melhor da competição principal.
Nenhuma objeção à Coppa Volpi para melhor ator e atriz. Justos os prêmios dados a Sean Penn (''21 Gramas'') e a Katja Rieman (''Rosenstrasse''). Por coincidência, coerentes com a decisão do júri principal, os jurados do tradicional ''Leão do Futuro Prêmio Luigi de Laurentis'' para melhor filme estreante depositaram um bom dinheiro (100 mil euros) na conta dos produtores do mesmo filme russo que ganhou o Leão de Ouro. O prêmio Marcello Mastroianni para jovem intérprete estreante foi para a marroquina Najat Benssallem, com bom trabalho em ''Raja'', de Jacques Doillon.
Na ''Controcorrente'', a outra mostra competitiva de longas metragens que o festival insiste em considerar tão importante quanto a principal, por isso embaralhando e comprometendo a visibilidade de ambas, o melhor filme foi ''Vodka Lemon'', filme curdo de Hiner Saleem, mais um a usar o pódio como tribuna política, agora a favor de seu povo (''meu filme é curdo, não iraquiano''). O argentino ''La Quimera de los Heroes'', de Daniel Rosenfeld, honrou a América Latina, recebendo uma ''Menção Especial''. Na categoria curta-metragem, o Leão de Prata também foi para a Rássia (''Neft/Petróleo'', de Murad Ibraginbekov), que acabou garantindo alto percentual dos leões possíveis.


