Filme revela opção pelos outsiders
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quarta-feira, 14 de julho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 15 (AE) - Como aquela outra, mais antiga, a história de "Mifune" também é cheia de som e fúria e contada por um idiota. No entanto - e essa é a diferença - tem sentido e significa muito. Com a entrada em cartaz do terceiro exemplar do Dogma 95, este assinado por Soren Kragh-Jacobsen, ficam patentes as diferenças, mas também as semelhanças dos filmes entre si. O jovem Thomas Vinterberg (de Festa em Família) é um demolidor de valores. Lars von Trier (de Os Idiotas) alcança um anarquismo maduro, que demole a sociedade como um todo. Jacobsen é igualmente subversivo, mas toca na ternura com a graça de um Carl Dreyer, provável fonte de inspiração de todos eles. O ponto em comum: a preferência explícita pelos outsiders, pela turma do porão de uma sociedade afluente como a dinamarquesa.
"Mifune" é a história de Kresten, o homem que se casa, começa a sua lua-de-mel, sabe da morte do pai e vai para interior cuidar de um irmão deficiente mental, Rud. Na decorrência, envolve-se com uma prostituta amorável como a Cabíria de Fellini (embora não tão ingênua) e joga o casamento para o alto. O resto fica por conta de quem for ver o filme. O título joga um papel interessante na compreensão de "Mifune". A referência é ao grande Toshiro Mifune, o ator japonês de Akira Kurosawa, o implacável e temível samurai. Quando Rud tem um dos seus costumeiros ataques, Kresten fantasia-se de Toshiro Mifune para brincar com o irmão e distraí-lo. Um Toshiro de fancaria, com um balde na cabeça em lugar do elmo e trapos imitando os longos cabelos. Lembra um pouco o alucinado Quixote, o personagem enlouquecido pelas histórias de cavalaria, que fazia de uma bacia o seu escudo e lutava contra moinhos de vento.
Nessa brincadeira entre irmãos desvela-se uma das características marcantes do Dogma: o aspecto lúdico. Há um prazer evidente na encenação, que passa por verdade e por isso consegue empatia com o espectador. Nesse antiilusionismo radical reside a graça desses filmes. O público sabe que está diante de uma montagem artificial, mas a própria naturalidade como a narrativa escorre anula qualquer impressão de artificialismo. É como se o cinema registrasse a vida, à medida em que ela vai transcorrendo, com o mesmo descuido de alguém que vai registrando os acontecimentos de sua vida em seu modesto diário íntimo. Nesse sentido, "Mifune" e os outros exemplares do Dogma vão contra a corrente do "progresso" cinematográfico. Em sua versão dominante, o cinema é ilusionista por definição.
Cria-se uma situação muito artificial (estúdios, efeitos especiais e, agora, computação gráfica) para que ela pareça muito natural. O espectador deve ter a impressão de que tudo aquilo está acontecendo na realidade, por absurdo que seja o que se passa na tela. Por isso tantas vezes o cinema foi comparado ao ato de sonhar. Quem sonha acredita naquilo que está vendo. Mesmo que esteja nu diante de uma multidão, ou voando, ou conquistando a mais desejada das mulheres. O cinema seria como um sonho sob controle. Antiilusão - A contrapartida da tendência dominante é o cinema antiilusionista. Não se quer mais que o espectador acredite piamente no que acontece na tela. Ele deve estar consciente de que aquilo que vê não é a realidade, mas a representação da realidade. Pede-se um distanciamento (crítico) entre ele e a representação. No cinema ilusionista há uma relação de fascínio; no antiilusionista, de cumplicidade. Esse corte na relação de fascínio estraga o espetáculo? De modo algum. Há mesmo diretores que brincam com essa quebra das ilusões. Fellini é um caso notório. Seu Casanova navega num mar de plástico quando escapa de uma Veneza ostensivamente fake. O mundo é recriado nos estúdios de Cinecittà. Lá, tudo parece mais real que a realidade por que lá tudo é ostensivamente falso. Em "E la Nave Va..." há o indefectível mar de plástico, um pôr-do-sol improvável, tipos caricaturais, que você nunca encontraria na "realidade". Não satisfeito, nas últimas cenas Fellini recua a câmera, mostra a si mesmo montado na grua e revela que o navio não passa de uma engenhoca esperta, criada pelos técnicos. Isso destrói a relação emotiva do espectador com o filme? Ao contrário: é justamente quando a emoção surge de maneira mais intensa. O espectador sabe que está diante de uma montagem dirigida a ele. E que, portanto, ele faz parte daquilo. "A história fala de você", como diziam os antigos.
No caso de "Mifune", e também dos outros filmes-Dogma, busca-se um novo realismo, digamos assim, um neo-naturalismo. Um naturalismo sujo em que a eventual falta de foco ou o deslocamento abrupto da câmera não deixam o espectador esquecer de que está diante de uma representação cinematográfica. Pede-se ao espectador que acredite nessa representação, da mesma forma como o pequeno Rud acredita que o irmão se transforma em Toshiro Mifune no porão. Um acreditar entre aspas, esse ponto em comum da humanidade, democraticamente partilhado por sábios e idiotas, que é o dom divino de suspender temporariamente a incredulidade.


