São Paulo, 07 (AE) - A personagem principal de Ancoradouro, primeiro longa-metragem de Felipe Galvão, é uma atriz que trabalhou com Charlie Chaplin, fez outros filmes nos Estados Unidos, pisou nos palcos da Broadway, escreveu livros. Depois veio para o Brasil, internou-se no sertão de Goiás, especulou com terras, foi presa por passar cheques sem fundo e é tida como uma das pioneiras da fundação de Brasília. Aqui estabeleceu-se e por aqui morreu. O melhor de tudo é que, contra todas as aparências, essa figura existiu de verdade.
Joan Lowell era seu nome e viveu uma existência de aventuras, como não mais é possível hoje em dia, quando o máximo de adrenalina possível vem das oscilações do dólar e das ameaças de confisco da poupança. Galvão conta que a conheceu quando adolescente, em Brasília, quando ela era uma pessoa notória na cidade. "Em uma das festas do Iate Clube, em 1964 ou 1965, Joan foi vestida de noiva, chegou ao clube montada em um cavalo, "grávida", tendo mais de 60 anos de idade", recorda-se.
Galvão nasceu em São Paulo, mas mora e mantém laços estreitos com Brasília. Mudou-se para a capital federal quando seu pai foi requisitado pra trabalhar na correspondência do então presidente João Goulart. Ficou por lá e frequentou o famoso curso de cinema da Universidade de Brasília (UnB), no início dos anos 60, que era ministrado por Paulo Emílio Salles Gomes, Jean-Claude Bernardet e Lucila Bernardet. Estudou e trabalhou em muitas coisas, mas a figura de Joan nunca lhe saiu da cabeça. Acha que chegou a hora de ela ganhar o filme que merece.
O fato é que Joan Lowell, nascida em 1899, parece mesmo uma personagem de ficção. Ela trabalhou com Charles Chaplin no clássico Em Busca do Ouro, de 1925. Esteve em outros filmes, como Loving Lies e Cold Nerve. Nada notáveis, ao que parece. Pelo menos, não constam em lugar nobre dos anais cinematográficos. Gostava também de escrever e assinou um livro de enorme sucesso, Cradle of the Deep, em que conta sua suposta vida de aventureira. Baseada no próprio livro, escreveu o roteiro para Adventure Girl, estrelado por ela mesma e dirigido por Herman Raymaker.
Os críticos da época picharam impiedosamente miss Lowell. Dizem que, se o livro já exige certa credulidade do leitor, o filme então pede completo desapego a qualquer noção de verdade factual. Na saga protagonizada por ela mesma, Joan interpreta uma exploradora dos sete mares, hábil marinheira e perita em mergulho em profundidade. Enquanto navega pelo Caribe, tem de enfrentar um furacão terrível, luta sem temor contra uma gigantesca sucuri e escapa por pouco de ser queimada na fogueira por indígenas pouco civilizados. Todos esses contratempos são recompensados quando Joan consegue descobrir o valioso tesouro que procurava a partir de um mapa antigo.
O filme de Felipe Galvão começa depois da desilusão causada pela má repercussão de Adventure Girl. Decidida a mudar de vida, deixa Nova York a bordo de um navio e parte para a América do Sul. Não por acaso, o capitão é um conterrâneo chamado Lee Bowen, que tinha planos para abandonar a vida no mar e dedicar-se à aventura em terra. Ele desafia Joan a explorar os grotões brasileiros onde, supunha, poderiam fazer fortuna. O ano é 1935. Como estavam apaixonados, e ela era mulher decidida, topou o desafio.
Desembarcam em Santos e passam um ano no litoral, antes de seguir para Goiás. Já mais bem ambientados no País, o casal de norte-americanos decidiu que estava pronto para seguir rumo ao interior. Depois de procurar por algum negócio de ocasião, receberam proposta para abrir um trecho de estrada através da floresta de São Patrício, tão cerrada que não permitia a entrada de máquinas. Em troca, ganhariam 70 mil acres de terra.
Permanecem durante três anos no local e passam o diabo quando a companhia para a qual trabalhavam é vendida e os novos donos resolvem não honrar o acordo anterior. Depois de muitas peripécias, o casal consegue fazer seus direitos prevalecerem na Justiça e recebem o lote prometido. Fundam uma fazenda e batizam-na de Ancorage - daí o título que Galvão escolheu para o filme.
Mas a vida de aventuras de Joan Lowell não havia terminado, conta Galvão. Em 1957, por intereferência de um advogado que representava a antiga companhia, Joan é presa por estelionato. Logo depois, é libertada e busca proteção com Bernardo Sayão (construtor da estrada Belém-Brasília). Torna-se figura notável em Brasília, é reconhecida como antiga estrela de Hollywood e vive com o marido nas cercanias da capital até o fim de suas vidas. O capitão morre em 1961, vítima de um acidente de carro. Joan sobrevive até 1967. Ela nunca retornou aos Estados Unidos e naturalizou-se brasileira. Permaneceu até o fim em sua chácara de Planaltina, onde foi encontrada morta.
Parte do elenco de Ancoradouro já está escolhido. A personagem-título será vivida por Delta Araújo, que foi jornalista, atriz e bailarina. "Ela também passou por situações aventurosas, o que a qualifica para interpretar uma vida como a de Joan Lowell", diz Galvão. O papel de marido da desbravadora, o capitão Bowell, será entregue a um ator estrangeiro, ainda não determinado. "Pretendo que seja americano ou inglês", afirma o diretor.
Roberto, o caiçara que acompanha a personagem no tempo em que ela ficou morando na baixada, será interpretado por Marcos Palmeira. A mulher de Roberto, Maria, será Iara Pietricovsky, atriz brasiliense. Paulo César Pereio fará o papel do governador de Goiás. Haverá também participações especiais de Luiz Carlos Buruca, José Geraldo Rocha, Gonçalo de Mello, André Amaro, Denilson Félix. As populações do litoral paulista e do interior de Goiás devem compor a figuração. O projeto está inscrito no Ministério da Cultura, apto a beneficiar-se das leis de incentivo.
Joan Lowell, hoje, é uma ilustre desconhecida. Deverá ser relembrada pelo filme de Felipe Galvão. Mas, nos anos 50, era uma figurinha carimbada da mídia. Foi objeto de extensas reportagens em veículos como Correio da Manhã, a revista O Cruzeiro, Diário da Noite, etc. Despertava curiosidade pelo fato insólito de vir de Hollywood diretamente para o sertão de Goiás.
Mais: exibia um comportamento desinibido, aberto, contrastante com o recolhimento do interior brasileiro. Desde que pôs os pés no Brasil não voltou à sua pátria. Sobre suas experiências no Brasil, escreveu um livro de grande sucesso, Promised Land, traduzido literalmente em português como Terra Prometida. Considerava-se autêntica nativa e não atendia quando a chamavam de mrs. Bowen ou Joan - "Meu nome é Joana", dizia. Mais brasileira, impossível. Uma vida como essa tem de tudo para dar um belo filme.

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