Foi uma jornada de pura graça, no Palácio dos Festivais. E graça plena em ambos os sentidos. Antes, o altíssimo astral, carinho e respeito na homenagem comovente – sem exageros lacrimogêneo – ao ator Paulo José, que recebeu o Troféu Oscarito-MovieStar (veja matéria nesta página). E logo em seguida, a harmoniosa exuberância de um filme que indiscutivelmente sai na frente na corrida aos Kikitos reservados às principais categorias.
Ninguém, anteontem, na sala completamente lotada sentiu os 137 minutos da projeção. E ao final, a ovação à comédia – com alguns condimentos dramáticos – peruana que reafirma não apenas o talento de um cineasta hoje fundamental na América Latina, mas que ainda permite recuperar lições simples do ofício cinematográfico que para muitos andam esquecidas.
Quinze anos depois de realizar ‘‘La Ciudad y los Perros’’, o diretor Francisco J. Lombardi de novo penetra no universo ficcional de Mario Vargas Llosa. Só que desta vez, ao contrário da abordagem anterior, apenas parcial, o mergulho é bem mais ambicioso, de cabeça, adaptando uma das novelas fundamentais do escritor. E além de tudo atrevido, o cineasta, que reescreve em imagens, aqui e ali, alguns traços da rica e complexa personalidade do militar Pantaleón Pantoja. A audácia ganha dimensões épicas quando se sabe que o próprio Vargas Llosa, em sua primeira – e é quase certo que única – experiência como diretor de cinema, se auto-adaptou na década de 70 exatamente com este título, ‘‘Pantaleón y las Visitadoras’’.
Exibido com enorme êxito na seção ‘‘Panorama’’, do último Festival de Berlim, e um dos campeões de bilheteria no Peru, em todos os tempos, o filme de Lombardi é uma festa para a cabeça e para os sentidos. É impossível não rir muito diante das sábias doses de humor proporcionadas por Lombardi na recriação do bordel aquático que corta as águas calmas do rio Amazonas. Para quem não conhece o texto de Vargas Llosa: a cúpula do exército do Peru, preocupada com o elevado indice de violência sexual praticada por soldados servindo em batalhões avançados na fronteira, convoca o exemplar capitão Pantaleón Pantoja, reto, integro, metódico, bem-casado, caxias ao extremo, para organizar um serviço de atendimento sexual à domicício. Em resumo: levar prostitutas – ‘‘las visitadoras’’ do título – para aliviar tensões e manter o moral da tropa sempre elevado...mas sob controle.
O serviço é organizado pelo militar com obsessiva eficiencia. Tudo é rigorosamente checado – escolha e distribuição das mulheres, gastos, frequência de ‘‘assistências’’ – com metodologia científica e com o auxílio de uma veterana e entuaismada cafetina, Chuchupe. Uma base de operações, a ‘‘Pantilândia’’, é erguida na selva, e um barco, ‘‘Eva’’, serve para transportar as ‘‘ambulantes’’ aos pontos mais longínquos. Esta ordem paradisíaca, no entanto, passa a ser ameaçada pelo locutor de uma rádio comunitária e pela irresistível atração que Pantoja sente pela voluptuosa beleza de uma das profissionais em ação, no filme a Colombiana (no livro, a Brasileira) e na vida real uma senhorita chamada Angie Cepeda
Todo o encanto da novela está mantido graças a uma comunhão rara de roteiro e direção em andamento harmônico, sem que isto signifique escravidão ao texto. Talvez a liberdade maior tomada por Lombardi tenha sido pintar o personagem Pantaleón com tintas mais trágicas do que o original. No mais está tudo lá, cores e gente da ‘‘americalatinidad’’, a carga telúrica do Rio Amazonas, a crítica impiedosa e hilária à ordem militar capaz de gerar absurdos em nome da paz e do progresso, as farpas afiadas a um certo tipo de imprensa. A lamentar apenas a ausência aqui em Gramado de Lombardi e da nova estrela Angie Cepeda, sensualidade vulcânica capaz de manter afastada da serra gaucha qualquer nova massa polar.

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