Filme ou panfleto político ?
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
Luiz Carlos Merten<br>Agência Estado 
Numa cena de ''Maradona por Kusturica'', o grande Diego diz que recebeu convites para ser homenageado nos EUA e em Cuba. O ano era 2008, ainda na era George W. Bush. ''Aos EUA, não vou'', anuncia o atual treinador da seleção argentina. ''Só a Cuba.'' Para mostrar sua devoção à causa, ele exibe as tatuagens. A cara de Fidel Castro na perna, a de Che Guevara no braço e a inscrição 'Argentina' no peito. Maradona não é nem um pouco razoável. É excessivo. Logo no começo, o próprio diretor Emir Kusturica empunha a guitarra num show de sua banda em Buenos Aires. O apresentador diz que ele é o Maradona do cinema. O público vibra.
Há um culto tão forte a Maradona na Argentina que deve horrorizar a um bom servo do Senhor, como Kaká. Idólatra - Maradona é comparado a Deus. Existe em Buenos Aires uma igreja maradonense, na qual os ''devotos''- todos tietes do ídolo - se batizam e casam e as crianças aprendem a rezar a Maradona ''que estás en el cielo''. Considerando-se a dupla natureza, do biografado e a do autor da cinebiografia, Maradona por Kusturica é tudo menos um documentário objetivo. O filme está sendo lançado em DVD pela Europa em plena Copa do Mundo.
A distribuidora Europa revela senso de oportunidade ou se equivoca? Quem quer ver, agora, um documentário sobre Maradona? O cinéfilo. Pelé pode ser eterno, mas no cinema não deu sorte. Até quando foi dirigido pelo grande John Huston, o filme - ''Fuga para a Vitória'' - revelou-se o pior do diretor. Maradona ganhou uma celebração à altura de sua persona. Kusturica o compara a Dionísio. O deus grego introduz uma ordem - dos prazeres, dos sentidos - no caos do mundo. O diretor e o jogador são almas gêmeas.
O filme de Maradona é um panfleto político - pró-Hugo Chávez e Evo Morales, contra Bush, Margaret Thatcher, Ronald Reagan e o príncipe Charles. Kusturica recorre até a animações, sempre para mostrar Super Diego driblando os poderosos. Ao fazê-lo, diz que está expressando na tela o senso comum - e dando voz aos que não têm oportunidade de manifestar essas verdades básicas.
O filme não esconde a velha rixa de Diego Armando com Edson Arantes do Nascimento. Maradona conta que já havia jurado para suas filhas que nunca mais falaria mal de Pelé, mas admite que é mais forte do que ele. O fanfarrão é honesto, consigo mesmo e com seu público. Encara a dependência da cocaína, mas aproveita para provocar. Se lamenta o fato, é porque tem consciência de que, sem a droga, teria sido um jogador muito maior - Pelé não seria nem o segundo, como ele acha. O Maradona que, na África do Sul, já elogiou a seleção de Dunga cobre de elogios um jogador brasileiro, um certo Ronaldo, não o Fenômeno, mas o gaúcho Ronaldinho.
Kusturica assume que Maradona é ele. Para demonstrá-lo, busca paralelos entre seus filmes e a vida do jogador. Em especial, cita ''Gato Branco Gato Negro'' para dizer que Maradona foi sempre seu pior inimigo, mas sobreviveu para contar a própria história e ser incensado como Deus vivo. Deus, aquele Senhor, também foi contestado por José Saramago, que morreu na semana passada. Maradona é um grande personagem, maior que a vida. Diante de seus excessos, o cinéfilo, mais que o boleiro, se lembrará da máxima trágica - os deuses enlouquecem primeiro aqueles a quem querem destruir. Louco ou gênio, Maradona tem sido poupado. E ainda ganhou esse filmaço.


