Filme leva luta de classes ao universo infantil
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quarta-feira, 01 de outubro de 2014
Ricardo Calil<br>Folhapress 
São Paulo - Num país dominado pelo medo, uma elite obcecada por supérfluos vive encastelada, uma força de segurança vende serviços inventando ameaças da classe mais baixa - e esta, que sobrevive de catar lixo, é obrigada a viver escondida, em condições insalubres.
Parece um filme político passado num país real - que poderia ser o Brasil. Mas trata-se da animação em stop-motion "Os Boxtrolls", do estúdio Laika (de "Coraline", de 2009, e "ParaNorman", de 2012), baseado no livro infantil "A Gente é Monstro!", de Alan Snow.
O país do filme chama-se Pontequeijo, onde a deslumbrada classe alta adora chapéus elegantes e queijos finos (eles usam o dinheiro de um hospital infantil para criar um laticínio gigante).
Sonhando em ter acesso a esses bens, um exterminador de pragas chamado Arquibaldo Surrupião promete acabar com os boxtrolls, monstros que, segundo ele, raptaram uma criança e planejam roubar queijos.
Na verdade, os boxtrolls são criaturas pacíficas e amedrontadas, que vivem de reciclar lixo nos subterrâneos do país e adotaram um garoto órfão - que, ao crescer, elabora um plano para salvá-los do exterminador.
Ou seja, "Os Boxtrolls" traz a luta de classes para o universo da animação - e resulta em uma fábula política afiada, sem que os aspectos fantásticos sejam renegados.
O filme não chega a criar um mundo tão fascinante quanto o de "Coraline", a primeira e ainda melhor obra do estúdio Laika. Na verdade, demora um pouco a engrenar, com uma narrativa um tanto truncada em sua primeira meia hora.
Mas a capacidade de entretenimento cresce à medida que os carismáticos boxtrolls ganham a cena, e o avanço técnico e estético da Laika, de "Coraline" para cá, é absolutamente notável.
Aliás, não vá embora do cinema quando a narrativa parecer acabar. Há uma bela cena extra que rende homenagem aos artistas que fizeram a animação.
Ela mostra como o stop-motion (animação quadro a quadro, em geral com personagens de massinha) continua sendo um artesanato trabalhoso e delicado na era do cinema industrial.


