São Paulo, 26 (AE) - Tata Amaral conseguiu. Após o impacto produzido por "Um Céu de Estrelas", a expectativa era descobrir se a diretora mais talentosa revelada pelo cinema brasileiros nos anos 90 conseguiria igualar ou, mesmo, superar seu êxito inicial. Tata fez seu novo filme, "Através da Janela", com quase toda a equipe do primeiro. Estão lá os roteiristas Fernando Bonassi e Jean-Claude Bernardet (também autor do argumento), o fotógrafo Hugo Kovensky, a atriz Alleyona Cavalli, que agora se assina só Leona Cavalli. Através da Janela é muito bom. Opera no registro de tragédia que tanto agrada à diretora.
"Através da Janela" inaugura amanhã à noite, numa sessão especial para convidados, às 20 horas, o Festival Sesc dos Melhores Filmes de 1999. A partir de terça-feira, rola, para o público, a programação dos melhores, selecionados por 42 críticos, jornalistas especializados e pesquisadores de cinema, além dos frequentadores do Cinesesc, na Rua Augusta (foram computados os votos de 272 espectadores). Estarão presentes, na abertura do evento, o diretor Carlos Reichenbach, o ator Luiz Carlos Vasconcelos (de "O Primeiro Dia") e a atriz Denise Fraga (de "Por Trás do Pano"), eleitos os melhores de suas categorias, na seleção de filmes brasileiros. Vão receber o troféu criado por Emanoel Araújo. Tata não participa da festa. A diretora de Através da Janela está viajando. Caberá ao ator Fransérgio Araújo fazer as honras da apresentação do filme.
Como já é tradicional, o Sesc escolhe os melhores do ano em duas categorias - cinema estrangeiro e nacional. Entre os filmes brasileiros, "Santo Forte" chegou em primeiro, mas Eduardo Coutinho não emplacou o prêmio de direção, que foi para Reichenbach, com Dois Córregos, o segundo melhor. Repete-se assim, no Festival de Melhores do Sesc, o mesmo resultado da votação da Associação Paulista dos Críticos de Arte, a APCA, que terça-feira à noite entrega seus prêmios no Teatro Municipal.
Pela ordem, até o 10º, os melhores filmes brasileiros do ano passado, segundo a votação organizada pelo Sesc foram: "Santo Forte", "Dois Córregos - Verdades Submersas no Tempo"
"O Primeiro Dia", "Amores" e "São Jerônimo" (empatados em quarto), "Nós Que Aqui Estamos por Vós Esperamos", "A Hora Mágica", "Outras Histórias", "Orfeu", "Mauá - O Imperador e o Rei" e "Por Trás do Pano". Luiz Carlos Vasconcelos, o melhor ator, também recebe o prêmio da categoria na APCA.
Pouca gente duvida que "Tudo sobre Minha Mãe" e "De Olhos bem Fechados" foram os melhores filmes estrangeiros do ano passado. A questão é - qual deles chegaria em primeiro na votação do Sesc? Deu a obra-prima de Pedro Almodóvar, que coloca na tela, de maneira geral, a confusão amorosa do fim do milênio. Em segundo, ficou o grande Stanley Kubrick. Woody Allen ficou em terceiro com o delicioso "Descontruindo Harry" e "A Felicidade", de Todd Solondz foi o quarto. "A Felicidade", nunca será demais repeti-lo, é aquilo que "Beleza Americana" gostaria de ser, mas não é (e por isso foi para o Oscar).
Em quinto, empatados, ficaram "Deuses e Monstros" e "Os Idiotas". Completam a relação, até o 10°: "O Sexto Sentido", "Corra, Lola Corra", "Tempestade de Gelo", "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" e "Além da Linha Vermelha". "A Vida É Bela", de Roberto Benigni, que atropelou a candidatura de "Central do Brasil" no Oscar, no ano passado, ficou em 11º. O melhor diretor estrangeiro de 1999 foi Almodóvar. O melhor ator foi, Ian McKellen, realmente extraordinário em "Deuses e Monstros". A melhor atriz, Cecília Roth, por "Tudo sobre Minha Mãe".
Todos esses filmes estarão sendo reprisados até o dia 9 na sala da Augusta. Amanhã, a primazia é dos convidados, que vêem "Através da Janela". O filme de Tata deve estrear nos cinemas só no começo de maio. Enquanto estiver sendo apresentado no Cinsesc, os telespectadores da TV paga poderão ver no Canal Brasil da Net/Sky, o primeiro longa de Tata - "Um Céu de Estrelas". Os dois formam um bloco de notável coerência. No segundo filme, a diretora dá sequência à pesquisa narrativa sobre a estrutura da tragédia, que começou com o primeiro.
O novo filme não deixa de ser uma atualização dos mitos clássicos de Édipo e Jocasta. O Édipo de Tata é Raimundo, ou Raí
interpretado por Fransérgio Araújo. É um retrato de sua geração; tenta inserir-se, mas por não conseguir vive num limbo que o atira na marginalidade. A Jocasta é Selma, enfermeira aposentada que sente estranha perturbação diante dos abraços do filho ou da visão de seu corpo meio despido, na cama. Tata trabalha no limite entre o prosaico e o trágico. Como gosta de dizer, "é desafio é fazer tragédia com a mulher lavando roupa." "Um Céu de Estrelas" é pura dinamite: trata de emoções em explosão. "Através da Janela" adota o foco de Selma e, por isso mesmo, sua violência é mais contida (ou internalizada). É outro filme forte de Tata Amaral. Não seria tão bom sem a atriz Laura Cardoso. Ela nunca é menos do que excepcional, no papel.
Serviço - Festival Sesc dos Melhores de 1999. Até dia 9 no Cinesesc (Rua Augusta, 2.075, em São Paulo.). Terça-feira: às 15 e 19 horas: "A Vida É Bela"; às 17h10 e 21h10: "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?".

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