‘‘Parece até que ele (o diretor Andrucha Waddington) viu tudo. Tá igualzinho.’’ Essa foi a reação de Maria Marlene Sabóia da Silva, 54, ao assistir ao filme que inspirou, ‘‘Eu, Tu, Eles’’. O roteiro conta a história de uma mulher que vive com três maridos na mesma casa, no sertão cearense.
Ela e outras 15 mil pessoas de Morada Nova (a 162 km de Fortaleza) viram a pré-estréia da produção ao ar livre, na praça central da cidade, na noite de sábado. O único cinema da cidade está desativado.
A exibição foi acompanhada ainda pelos sete filhos de Marlene, por dois netos e por um de seus maridos, Francisco Sabóia, o Chico, 70. O marido oficial, com quem ela é casada no civil, Oscar Sabóia da Silva, 69, não aceitou participar. O mais novo, José Eduardo Ferreira, 34, o Zé, foi embora de casa no ano passado e ninguém sabe onde ele vive hoje.
Se na vida real era o marido mais novo que Marlene achava o mais bonito, no filme ela não tem dúvida: prefere Lima Duarte, que fez o papel de Oscar.
‘‘Olha só o Oscar ali, todo bravo, do jeito que ele é. E o Stênio Garcia, todo bonzinho, dentro de casa, querendo me agradar, cuidando de tudo. Parece o Chico mesmo. E o Zé, tá igual.’’
A sua personagem é interpretada por Regina Casé. Antes do filme, Marlene duvidava que ficasse bom. ‘‘Vai ficar igual ao Muvuca’’, dizia. ‘‘Não sou escandalosa, não fico querendo aparecer. Como é que ela faz o meu papel se nunca veio falar comigo, se não me conhece.’’ Depois, adorou. ‘‘A única diferença é que eu não gritava daquele jeito na hora do parto’’, ri Marlene.
O diretor Andrucha Waddington sentiu alívio com a aprovação de Marlene. Ele disse que estava preocupado porque não sabia se ela aceitaria o filme. ‘‘O mais importante é que ela e a família dela ficaram felizes com o trabalho, que, em nenhum momento, fez julgamentos ou deboche desse relacionamento. É uma história de amor.’’
Chico, que nunca havia entrado em um cinema, também gostou. Durante a projeção, ele e a mulher relembravam passagens da vida revividas na tela e riam da semelhança.
No final dos 102 minutos da exibição, palmas para Marlene, que saiu da cidade dando autógrafos e sendo festejada como ídolo local ao lado do prefeito Franciné Girão (PSD), que, com o governo do Estado, apoiou a iniciativa. Ele destacou 50 ônibus e caminhões paus-de-arara para buscar a população nos locais mais distantes da região.
A única reclamação das pessoas que comparecem à praça para assistir ao filme foi a ausência de Regina Casé, Lima Duarte e Stênio Garcia, impedidos de estar ali por causa de gravações. O paraibano Luiz Carlos Vasconcelos (‘‘Baile Perfumado’’ e ‘‘O Primeiro Dia’’), que fez o marido mais novo, era o único do elenco presente.
‘‘É extremamente importante esse tipo de iniciativa porque é cada vez mais restrito o público do cinema nacional. Acaba sendo o público mais humilde que realmente prestigia, que quer ver a produção, e, geralmente, dificilmente chega a eles’’, disse o produtor Flávio Tambellini.

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