Filme faz inventário da decadência da aristocracia
Na Sicília de 1861, a revolução garibaldina chega anunciando a unificação da Itália e o fim, para a aristocracia local, de toda uma era. Sobrinho dileto de dom Fabrizio, Tancredi (Alain Delon) se engaja espertamente na revolução, legando ao tio o lema: ''É preciso mudar para que tudo continue como está''. Legado que cabe, hoje, a todo o século 20 e suas revoluções, mas que Visconti aplicava, mais especificamente, à Itália de sua época, em que a ascensão de um governo de centro-esquerda não garantira a mudança das relações sociais.
''O mal histórico italiano'', dizia ele, ''se chama transformismo''. Em ''O Leopardo'', a consciência histórica de Visconti passa pela sensibilidade e o desencanto (meio tchekhovianos) de dom Fabrizio. Isto é, por sua índole aristocrática. Pelos olhos de dom Fabrizio, testemunha ocular da decadência de sua classe, Visconti faz o inventário cenográfico da aristocracia: palacetes, roupas, móveis, modas. Visconti, o esteta, nunca deixa de buscar no belo a transcendência de suas imagens.
O inventário comprova que, partindo de Lampedusa, Visconti queria chegar a Proust. Daí a importância da sequência final do baile (que Visconti levou quatro semanas para executar), sequência em que dom Fabrizio, em busca do tempo perdido, chega à plena compreensão deste que é o sentimento mais recorrente nos filmes de Visconti, a sensação de que já é tarde demais.
No grande baile aristocrata, rito fúnebre de uma classe moribunda, Tancredi consuma seus ditames, anunciando seu casamento com a bela filha (Cardinale) de um burguês emergente. Visconti reencontrava ali a história do casamento de seus pais e, junto a ela, um pouco de seu tempo perdido.
Serviço: ''O Leopardo''. Produção: Itália, 1963. Direção: Luchino Visconti
Com: Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale. Lançamento: Versátil





