Filme falha como parábola do cristianismo
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segunda-feira, 21 de junho de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 22 (AE) - Um menino nasce numa cidade em alguma espécie de Oriente distante, sem que sua mãe tenha sido fecundada. Três cavaleiros são seus padrinhos: um sábio, um jovem aristocrata e um nobre atrapalhado de um país periférico. Seu destino está traçado: embora nascido numa nação escravizada, será o Messias, aquele a quem cumprirá decidir o destino do mundo.
Bem, você irá dizer: todos conhecemos essa história. É o roteiro do cristianismo, uma antiga história de 2 mil anos. Não: isso é "Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma", de George Lucas. A peculiaridade é que foi transportada para um futuro distante, prenhe de uma ficção científica provável - diante da qual se debruçam especialistas de toda natureza desde seu lançamento, em 19 de maio, nos Estados Unidos.
Curioso é notar que o outro grande filme de ficção científica deste fim de século, "Matrix", parte do mesmo princípio. Por baixo do arcabouço tecnológico avassalador, está a história simples do Iluminado, o homem nascido escravo que irá libertar seu povo. Em "Matrix", sua vinda será oportunamente anunciada por um profeta e Neo/Cristo (Keanu Reeves), após a ressurreição, termina enviando sua mensagem de salvação via e-mail.
Em ambos, imagina-se como seria se um tipo de Cristo viesse à tona daqui a alguns séculos e quais os percalços que enfrentaria. Mas o cristão novo George Lucas vê um futuro já realizado: o anjo do bem é uma das faces da moeda dupla bem/mal e seu destino é capitular frente às forças sombrias. Em "Matrix", cuja forma é mais revolucionária, o conteúdo é mais conservador: nenhuma tentação demoverá Neo de seu objetivo de libertar a humanidade.
Já "Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma", como parábola do cristianismo, falha por não conseguir contar a velha história de forma convincente. Não se pode esperar dimensão mítica dos seus personagens rasos. Nem mesmo do seu judas, o senador Palpatine (Ian McDiarmid), que é - segundo os fãs mais ensimesmados - a tal ameaça fantasma de que fala o enigmático título. George Lucas é, então, a ameaça visível. Todos seus clichês e sua "ideologia" estão de novo visíveis em "Star Wars: Episódio 1", mas estão tão visíveis que ele parece ter aniquilado qualquer possibilidade de surpresa, de arrebatamento. É como se conspirasse para destruir a própria reputação.
O robô-protocolar C3PO, piada convincente no início pelo inusitado de sua atitude burocrática em situações de perigo, perdeu completamente a graça. Seu parceiro, R2-D2, não serve para mais nada. Como não podia contar com Chewbacca, o troglodita peludo que será a vedete do futuro, Lucas criou Jar Jar Binks, espécie de Jerry Lewis anfíbio. O problema continua sendo a previsibilidade: todos sabemos de antemão quando Jar Jar tropeçará, quando sua falta de coordenação motora vai ajudar na batalha, sabemos que o cavaleiro jedi vai segurar sua língua quando tentar comer frutas na mesa. É compreensível que já tenham criado um site na Internet de desagravo a Jar Jar.
Então "Star Wars" é ruim? Apesar do desempenho sofrível dos atores - Deus, acabaram com Liam Neeson e Ewan McGregor! - o filme sobrevive do que é realmente seu maior trunfo: os efeitos especiais. Como se fosse uma sucessão de videoclipes, ele não tem uma espinha dorsal que se afirme como razoável, mas tem vários bons momentos, de grande eficiência visual. O melhor deles é sem dúvida a corrida maluca de pods, realizada numa espécie de arena romana intergaláctica.
O jovem Anakin Skywalker (Jake Lloyd) bate-se contra a mais esquisita fauna de extraterrestres, como se fosse um jovem Speed Racer temerário. Outro grande personagem é o mercenário Jabba, espécie de vespa espacial, que rouba metade do filme com suas aparições bizarras. Embora seja apenas um puppet, é cem vezes mais expressivo do que a robótica rainha Amidala (Natalie Portman).
Certos lugares parece que só foram colocados em cena porque algum artista da Industrial Light & Magic tinha feito um desenho legal. É o caso da magnífica cidade sob o mar, que surge apenas para justificar a existência de Jar Jar Binks, que só existe para... Talvez simbolizar uma espécie de ponte entre Oriente e Ocidente, entre negros e brancos, se o crítico tiver uma grande dose de boa vontade.
Já as cenas de espada superam as anteriores, que em geral envolviam personagens hesitantes (exceto o raivoso Darth Vader). Agora, são três espadachins jovens, com uma infinidade de golpes e algumas manhas marciais. De longe, o melhor é o vilão, Darth Maul (Ray Park). Ele parece até convincente com sua máscara meio Marilyn Manson, meio baile gay do Sírio-Libanês.
A ousadia de Lucas é a de tentar contar uma história da qual todo mundo já conhece o final. Anakin Skywalker, um menino esperto e inteligente, vai se transformar num vilão sanguinário e sem misericórdia. Vai trair a fé de seu mentor e a confiança de todo seu povo. Em nome de quê fará isso? Ambição, ódio, Freud
poder, desequilíbrio mental? Nada se justifica nesse "Episódio 1" de George Lucas. Quem sabe no Episódio 100?


