FILME ENGAVETADO IRRITA CINEASTA
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domingo, 07 de janeiro de 2001
Valmir Santos Agência Folha 
Rogério Sganzerla, 53, parece ter um filme engasgado na garganta. O Signo do Caos - ou Patifes (ele ainda não definiu o título) -, produção independente que rodou há cinco anos e ainda não conseguiu lançar, tornou-se auto-referente. O enredo trata de censura arbitrária, atalho para ele brandir contra a censura econômica e consequentemente estética, como enxerga na voga do cinema nacional. É preciso dar um corte nessa produção vagabundérrima, nesses novelões, eleitos em detrimento das verdadeiras obras de arte, afirma.
O diretor de O Bandido da Luz Vermelha (68) diz que seu novo filme está pronto, falta apenas colocar os créditos e comercializar a obra. É aí, segundo ele, que mora o problema. Passei os últimos anos tentando uma parceria para a produção executiva e a pós-finalização, mas ainda não consegui. Não apareceu ninguém porque as pessoas preferem perder dinheiro com abacaxi a arriscar em um filme que é contra a segregação, que oferece uma defesa do que há de melhor no cinema. Depois do Rio, ele tenta obter recursos em São Paulo e se diz mais otimista para fazer o lançamento até o final do ano.
Rodado no centro histórico do Rio, no entorno da Praça 15, o roteiro de O Signo do Caos, também assinado por Sganzerla, trata da atuação dos censores no país, sobretudo a do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), lançado durante o governo Getúlio Vargas (1937-45), que controlava as idéias antagônicas aos interesses políticos do momento.
Dr. Amnésio (Otávio Terceiro) é encarregado de destruir os filmes subversivos, mergulhando-os na baía de Guanabara ou atirando-os do Pão de Açúcar. O censor entra em conflito com o repórter Morel (Sálvio Prado), que discorda da intervenção na obra de arte.
Segundo Sganzerla, o filme é um libelo aos projetos inacabados ou deixados de lado, ontem por questões ideológicas, hoje por questões financeiras. Cita, como emblema, Its All True (É Tudo Verdade), filme inconcluso que o norte-americano Orson Welles rodou no país em 1942.
Meu filme prova que Welles é o Napoleão do cinema, afirma o diretor. Sganzerla dedicou uma trilogia a Welles (Tudo É Brasil, A Linguagem de Orson Welles e Nem Tudo É Verdade), influência velada na sua obra.
Entre os artistas brasileiros que também foram ignorados, menciona Anselmo Duarte (O Pagador de Promessas, 1962) e Alberto Cavalcanti (Simão, o Caolho, 1953), ainda que não os cite diretamente em seu novo filme.
Quero projetar verdade humana, mais luz sobre a existência da obra de arte cinematográfica em relação à cultura, definindo seus direitos e obrigações com relação ao espectador sensível, diz.
O Signo do Caos foi rodado no formato 16mm, com a maioria das cenas em preto e branco (90 minutos). No elenco, entre outros, estão Giovana Gold, Eduardo Cabus e Gilson Moura.
Enquanto lida com as vicissitudes do mercado de cinema, Rogério Sganzerla desfruta de uma rara incursão pelo teatro. O cineasta dirige a sua mulher, Helena Ignez, e a filha Dji Sganzerla em Savannah Bay, de Marguerite Duras.
Teatro é mais difícil que cinema, diz Sganzerla. No cinema, você controla tudo por meio de uma câmara; no teatro, cada espectador equivale a uma câmara. Delega tudo às intérpretes e foca na concepção visual. Elas se autodirigem, afirma.


