Rogério Sganzerla, 53, parece ter um filme engasgado na garganta. ‘‘O Signo do Caos’’ - ou ‘‘Patifes’’ (ele ainda não definiu o título) -, produção independente que rodou há cinco anos e ainda não conseguiu lançar, tornou-se auto-referente. O enredo trata de ‘‘censura arbitrária’’, atalho para ele brandir contra a censura econômica e consequentemente estética, como enxerga na voga do cinema nacional. ‘‘É preciso dar um corte nessa produção vagabundérrima, nesses novelões, eleitos em detrimento das verdadeiras obras de arte’’, afirma.
O diretor de ‘‘O Bandido da Luz Vermelha’’ (68) diz que seu novo filme ‘‘está pronto, falta apenas colocar os créditos e comercializar a obra’’. É aí, segundo ele, que mora o problema. ‘‘Passei os últimos anos tentando uma parceria para a produção executiva e a pós-finalização, mas ainda não consegui.’’ ‘‘Não apareceu ninguém porque as pessoas preferem perder dinheiro com abacaxi a arriscar em um filme que é contra a segregação, que oferece uma defesa do que há de melhor no cinema.’’ Depois do Rio, ele tenta obter recursos em São Paulo e se diz mais otimista para fazer o lançamento até o final do ano.
Rodado no centro histórico do Rio, no entorno da Praça 15, o roteiro de ‘‘O Signo do Caos’’, também assinado por Sganzerla, trata da atuação dos censores no país, sobretudo a do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), lançado durante o governo Getúlio Vargas (1937-45), que controlava as idéias antagônicas aos interesses políticos do momento.
Dr. Amnésio (Otávio Terceiro) é encarregado de destruir os filmes subversivos, mergulhando-os na baía de Guanabara ou atirando-os do Pão de Açúcar. O censor entra em conflito com o repórter Morel (Sálvio Prado), que discorda da intervenção na obra de arte.
Segundo Sganzerla, o filme é um libelo aos projetos inacabados ou deixados de lado, ontem por questões ideológicas, hoje por questões financeiras. Cita, como emblema, ‘‘It’s All True’’ (‘‘É Tudo Verdade’’), filme inconcluso que o norte-americano Orson Welles rodou no país em 1942.
‘‘Meu filme prova que Welles é o Napoleão do cinema’’, afirma o diretor. Sganzerla dedicou uma trilogia a Welles (‘‘Tudo É Brasil’’, ‘‘A Linguagem de Orson Welles’’ e ‘‘Nem Tudo É Verdade’’), influência velada na sua obra.
Entre os artistas brasileiros ‘‘que também foram ignorados’’, menciona Anselmo Duarte (‘‘O Pagador de Promessas’’, 1962) e Alberto Cavalcanti (‘‘Simão, o Caolho’’, 1953), ainda que não os cite diretamente em seu novo filme.
‘‘Quero projetar verdade humana, mais luz sobre a existência da obra de arte cinematográfica em relação à cultura, definindo seus direitos e obrigações com relação ao espectador sensível’’, diz.
‘‘O Signo do Caos’’ foi rodado no formato 16mm, com a maioria das cenas em preto e branco (90 minutos). No elenco, entre outros, estão Giovana Gold, Eduardo Cabus e Gilson Moura.
Enquanto lida com as vicissitudes do mercado de cinema, Rogério Sganzerla desfruta de uma rara incursão pelo teatro. O cineasta dirige a sua mulher, Helena Ignez, e a filha Dji Sganzerla em ‘‘Savannah Bay’’, de Marguerite Duras.
‘‘Teatro é mais difícil que cinema’’, diz Sganzerla. ‘‘No cinema, você controla tudo por meio de uma câmara; no teatro, cada espectador equivale a uma câmara.’’ Delega tudo às intérpretes e foca na concepção visual. ‘‘Elas se autodirigem’’, afirma.

mockup