Filme em cartaz traz um difícil olhar sobre a depressão
Em lançamento nesta quinta (23), “O Filho” tem um poder trágico que torna mais fáceis de tolerar os excessos manipuladores de Florian Zeller
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de março de 2023
Em lançamento nesta quinta (23), “O Filho” tem um poder trágico que torna mais fáceis de tolerar os excessos manipuladores de Florian Zeller
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Se não fosse pelo desempenho poderoso (e premiado) de Anthony Hopkins, a estréia de Florian Zeller no cinema em 2020, “O Pai”, poderia ter parecido totalmente enigmática em sua estrutura de quebra-cabeças sobre a demência de seu personagem-título. Mas os frequentadores dos teatros de Nova York que assistiram às peças de Zeller sabem que esse tipo de jogo narrativo é uma espécie de franquia dele. Quer se trate de demência em “O Pai”, de uma crise de meia-idade em “A Mãe” ou luto pela perda de um ente querido em “O Pico da Tempestade”, não parece haver crise psicológica que o dramaturgo francês não esteja disposto a transformar em... uma crise.
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Isso torna surpreendente a adaptação de Zeller e Christopher Hampton de outra peça dele (de 2019) do primeiro, “The Son”. Ao dramatizar as lutas do pai divorciado e frequentemente ausente Peter (Hugh Jackman), de sua ex-esposa Kate (Laura Dern) e da atual namorada de Peter, Beth (Vanessa Kirby), ao lidar com a depressão clínica do jovem Nicholas (Zen McGrath), Zeller praticamente eliminou suas frequentes manipulações de tempo e espaço. Pela primeira vez, neste segundo longa-metragem ele parece genuinamente interessado em explorar a psicologia de seus personagens em um formato mais tradicional.

O título do filme, em cartaz em Londrina, é um pouco enganador. O foco está menos em Nicholas, o filho, do que em Peter, o pai, e suas dificuldades em lidar com a situação. A depressão de Nicholas se manifestou não apenas em tentativas de suicídio, mas também em mentiras e decepções frequentes: entre outras coisas, fingir estar na escola enquanto na verdade faltava às aulas por meses a fio. Quando seu pai pede desesperadamente que ele explique suas ações, o melhor que Nicholas pode dizer é: “É a vida. Está me pesando.” Zeller não tenta oferecer nenhuma explicação para a depressão de Nicholas, que é a abordagem mais honesta para descrever uma doença mental que pode ser misteriosa por natureza. Em vez disso, ele dá dicas sobre as possíveis causas principais. Como a separação entre Peter e Kate, que parece ter feito ele se sentir ignorado, especialmente porque seus pais estavam (estão) tentando investir em suas respectivas carreiras profissionais. Peter, advogado em ascensão, está perseguindo ótimo trabalho para uma campanha política e a principio parece valorizar mais essa busca do que lidar com os problemas emocionais de Nicholas. (Em contraste, Zeller oferece comparativamente poucos detalhes sobre a vida das duas mulheres fora das órbitas de Peter e Nicholas.)
“O Filho” toca em questões sobre se ser pai significa ter que deixar de lado as ambições pessoais. Zeller também adiciona o perigo de os filhos repetirem os pecados dos pais. Sempre magnífico, Anthony Hopkins faz uma participação especial em uma cena do filme como o próprio pai de Peter e oferece um retrato conciso, mas brutal, de uma figura fria que acredita no amor duro acima de tudo. “Apenas supere isso”, é sua resposta a Peter quando seu filho traz à tona os problemas que ele viu na maneira como seu pai o criou. Alguns dos momentos mais perturbadores na atuação de Hugh Jackman estão no medo em seus olhos quando ele se vê agindo em relação a Nicholas de maneira que se assemelha ao tratamento de seu pai para com ele.
A recusa de Zeller em recorrer neste filme a truques estruturais nos permite apreciar melhor o seu talento para o diálogo lírico e a empatia pelos seres perturbados. O que não quer dizer que “O Filho” esteja totalmente isento de hábitos mais frustrantes – as metáforas que insiste em utilizar, como a recorrente e nada sutil máquina de lavar (como evocadora do colapso emocional de Nicholas); e o fato do rifle dado a Peter por seu pai, escondido atrás da tal máquina de lavar. Talvez o incômodo maior seja ao final, quando há o embate entre realidade e fantasia
No entanto, e como aconteceu em “O Pai”, a habilidade de Zeller com atores compensa muito as limitações de um roteiro imperfeito e até óbvio demais.. Embora as duas atrizes, Dern e Kirby, extraiam dose substancial de pathos de seus textos, e o estreante garoto McGrath transmita de forma memorável a ampla variedade de humores de Nicholas, é Hugh Jackman quem mais impressiona. Um artista conhecido por exalar certo charme mesmo quando está interpretando um personagem como Wolverine, Jackman se aprofunda na frustração e culpa de Peter, sem medo de ocasionalmente desafiar a simpatia do público por seu personagem bem-intencionado, mas sem noção. Sozinho, Jackman inocula no filme um poder trágico que torna mais fácil tolerar até mesmo os excessos mais manipuladores de Zeller.
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