Filme é uma obra-prima de Visconti
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quarta-feira, 30 de junho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 01 (AE) - Para os espectadores que só conhecem "Rocco e Seus Irmãos" do vídeo será uma surpresa, quase uma revelação. O clássico de Luchino Visconti foi lançado no Brasil pela Globo Vídeo na versão americana. "Rocco and His Brothers" tem 144 minutos de duração. A versão original italiana, "Rocco e i Suoi Fratelli", tem 182. Não se perderam apenas 38 preciosos minutos da narrativa. A versão de vídeo no mercado brasileiro altera a estrutura romanesca do filme ao eliminar os capítulos. Visconti dividiu o filme em cinco capítulos, cada um dedicado a um dos irmãos: Vincenzo, Simone, Rocco, Ciro e Luca. Na versão cinematográfica que a Pandora recoloca nas telas, a partir de amanhã (02), "Rocco" volta em todo o seu esplendor.
Se existisse uma categoria de filmes para se assistir de joelhos, em adoração, "Rocco" com certeza estaria entre os primeiros. Um intelectual hoje esquecido, o marxista Georg Lukácz, escreveu que, com "Rocco", Visconti concretizou na tela o apogeu do realismo crítico. Nestes tempos de globalização
ninguém mais fala em realismo crítico, que dirá em Lukácz. Os temas agora são outros: hype, virtualidade, efeitos especiais. O capitalismo já venceu sua última batalha, o bom e velho humanismo está morto? Os social-democratas, que assim se definem no papel, mas praticam um neo-liberalismo à base de distorções, comportam-se como se estivesse. A palavra de ordem é adequar-se aos novos tempos, à realidade de mercado. É bom que, de vez em quando, um Visconti venha nos dar lições de arte (e vida).
Já virou lugar-comum falar em Visconti como o conde vermelho. Ele nasceu aristocrata, mas fez do marxismo o projeto de sua vida. Morreu em 1976, deixando o legado de uma das obras mais extraordinárias da história do cinema. "Rocco" é uma de suas obras-primas e talvez seja "a" obra-prima, a tragédia por excelência do cinema, por mais que também sejam geniais "La Terra Trema", "O Leopardo" e "Vagas Estrelas da Ursa". Para "Rocco", Visconti baseou-se num livro pouco conhecido de Giovanni Testori, "Il Ponte della Ghisolfa". Baseou-se também, e principalmente, nas idéias do teórico marxista Antonio Gramsci. Nos anos 30, analisando as distorções econômicas e sociais da Itália, Gramsci disse que a solução para o impasse estaria na união entre o Sul agrário (e arcaico) e o Norte industrializado (e desenvolvido).
Tocado pelas idéias gramscianas, Visconti tentou fazer nos anos 40 um tríptico sobre a tragédia meridional e as correntes migratórias na Itália. Concretizou só a primeira parte
"La Terra Terra". "Rocco" é claramente um prolongamento, mas o marxismo é só uma de suas fontes de referência. Outras são a psicanálise e a tragédia grega. E não se pode esquecer de autores que sempre foram fundamentais para Visconti: Giovanni Verga, Doistoievski e Thomas Mann (o título tem a ver com José e Seus Irmãos). Foi assim que o cineasta criou a história da família Parondi. Quando o filme começa, a mãe, Rosaria (a atriz grega Katina Paxinou), e os quatro filhos estão chegando a Milão
onde já vive o quinto filho. Cinco irmãos, todos homens. "Meus filhos, unidos como os dedos da minha mão", diz a orgulhosa Rosária numa cena. Mas, ao contrário do que ela diz, eles não são unidos.
O tema do filme é justamente a desintegração da família na cidade grande, por mais que Rocco, o idealista interpretado por Alain Delon, se esforce para mantê-la unida. Para isso, ele, que é definido por Ciro como "um santo", vai violentar-se no mundo do boxe. O caminho da desintegração passa por Nádia, a prostituta interpretada por Annie Girardot, que termina por opor dois dos irmãos: Rocco e Simone (interpretado por Renato Salvatori). Nádia fica amante de Simone, mas eles terminam e ela se une a Rocco. O outro enlouquece de ciúme. Brigam a socos numa cena memorável. O tema de "Rocco" também é o conceito meridional de honra - que levará, no limite, Simone até o assassinato.
É um filme de grandes cenas. Numa das mais belas, Rocco e Nádia conversam. Ele representa a bondade e a pureza. Abre para a mulher uma porta que ela desconhece. Fala sobre a cidade em que nasceu e um costume local. Cada vez que vai construir uma casa nova, o pedreiro joga fora um tijolo - um sacrifício necessário para que a casa cresça sólida. Um dos Parondis também será sacrificado para que a família sobreviva. Rocco é um personagem extraordinário. Não é por acaso que dá título ao filme. Mas não é ele quem encerra o sentido da obra. Ele está mais em Ciro (Max Cartier), que vira operário especializado, com consciência de classe. Em pleno sonho do socialismo, o conde de Modrone, Visconti, reafirmava sua crença na classe operária. Mas a consciência de Ciro é só uma etapa. A felicidade, afinal de contas, talvez esteja traçada no fim do caminho só para Lucca, o mais novo dos irmãos, que vai realizar o sonho de unir o Sul e o Norte. Aquela estrada de esperança que ele percorre é a síntese da obra-prima viscontiana. É um raro e grande filme - na fotografia em preto-e-branco de Giuseppe Rotunno, na música de Nino Rota, nas interpretações. Visconti fazia por aquela época o que chamava de cinema "antropomórfico", em que a câmera se dirigia basicamente para o corpo do ator. Os atores de Rocco são excepcionais. Do elenco participa, ainda num pequeno papel, a bela Claudia Cardinale, que voltou depois na obra do diretor como Angélica Sedara (em O Leopardo) e Sandra, a modernização de Electra (em Vagas Estrelas).
A genialidade fica por conta do quarteto formado por Katina Paxinou, Alain Delon, Renato Salvatori e Annie Girardot. Os dois últimos casaram-se e viveram juntos até a morte dele, em 1988. Um dos prazeres proporcionados por "Rocco", e não o menor, é que oferece ao público a oportunidade de ver a que talvez seja uma das duas ou três maiores criações femininas de toda a história do cinema. Igual a Annie Girardot, já que melhor é impossível, só a Vivien Leigh de "Uma Rua Chamada Pecado", aquela Blanche DuBois que permanece como outras das emoções imorredouras do cinema.


