Filme é um cult visual e virtual
Cannes - É um irresistível rolo compressor, metáfora palpitante da dominação imperial do biliardário engenho hollywoodiano. Na estréia americana, ''Matrix Reloaded'' só perdeu para ''O Homem Aranha'' e ''Star Wars, o Ataque dos Clones'', apesar do recorde de cópias no lançamento - 8.517 para um faturamento de U$ 42,5 milhões. Na França, com a cósmica ressonância a partir da quase histérica projeção em Cannes, foram 576 mil espectadores no primeiro dia de exibição em 600 salas, número sem precedentes. E no circuito brasileiro a coisa deve ir para o mesmo caminho, já que a campanha promocional orquestrada pela Warner não é o que se poderia chamar de tímida ou excludente. Trânsito massificado na tevê, nos jornais e em capas de centenas de revistas, a um custo final, entre realidade e ficção, de cerca de U$ 300 milhões. Se isto não é globalização, então alguém que providencie outra definição.
Na concepção dos irmãos Andy e Larry Wachowski, ''Matrix'' é uma armadilha criada pelo misterioso Arquiteto, que aprisionou todo o gênero humano num orgânico programa de computador pilotado por certa força obscura. Somente uma minoria se refugiou na cidade subterrânea de Zion. São seres que vivem em sobressalto à espera do ataque final da Máquina. Para uma semi-tranquilidade geral chegam a Zion, a bordo da nave Nabucodonosor, os heróis do primeiro episódio (lançado em 2000): o comandante Morpheus (Laurence Fishburne), a jovem Trinity (Carrie Anne-Moss) e especialmente Ne (Keanu Reeves), o Eleito destinado a salvar o que resta do mundo real. Este consulta o Oráculo (Gloria Foster), que sugere uma visita ao Fabricante de Chave (Randall Duk Kim), atualmente prisioneiro do maléfico Merovingio (Lambert Wilson) e de sua arrasadora companheira Persefhone (Monica Belluci), que tenta seduzir Neo em cena destinada aos compêndios de antologia. Entre os vilões sempre disponíveis está o requintado Smith e suas centenas de cópias clonadas (Hugo Weaving).
E a chave, bem, a chave é o que menos interessa a esta altura da intrincada trama desta parte central da trilogia ''Matrix'', que terá seu fecho já no fim deste ano com ''Matrix Revolutions''. Para o espectador, ver este filme é como entrar numa sofisticada sala de jogos eletrônicos levando embaixo do braço alguns livros de pensadores contemporâneos como Hegel, Schoppenhauer, Heidegger, Nietzsche misturados a autores de ficção científica, à Bíblia dos ''comics'' e preceitos da teoria zen. Portanto, fica complicado aderir a uma coleção de personagens efêmeros e artificiosos, a uma história que não começa nem termina e a um espetáculo em grande parte apoiado na eficiente fotografia e nos efeitos hipnóticos. Mas tudo isso é muito glacial, distante, mecânico. Apesar dos esforços ''humanos'' de todo o elenco.(C.E.L.J.)
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge está em Cannes a convite do festival e com apoio da Sercomtel.





