São Paulo, 30 (AE) - O desafio é repetir, no cinema, o sucesso obtido na TV. Castelo Rá-Tim-Bum virou, em seus cerca de 90 episódios produzidos para a telinha, um must da TV Cultura, sinônimo de diversão para as crianças e de alívio para os pais - estes compreensivelmente preocupados como o baixo nível geral do veículo. Num universo de Xuxas, Angélicas, Chaves e assemelhados
o Castelo era uma ilha de inteligência e respeito ao público-alvo. Era, porque, dada a escassez de verbas da TV Cultura, deixou de ser produzido e tem sido reprisado à exaustão.
No cinema, como costuma dizer o seu diretor, Cao Hamburger, haveria oportunidade para desenvolver uma história mais longa e, eventualmente, mais complexa. O Castelo, na tela grande, é uma superprodução brasileira. Custou US$ 7,5 milhões, uma fortuna para o padrão nacional. Mas tudo isso aparece na tela. Para o adulto que o vê, a primeira coisa a reparar é no capricho da produção, da cenografia aos efeitos especiais, passando pelo trabalho fotográfico.
A trama é o que se espera para esse tipo de filme. Nino, o herói infantil (apesar de na história ele ter 300 anos), defende o castelo onde mora com seus tios Victor (Sérgio Mamberti) e Morgana (Rosi Campos) contra a cobiça de sua tia Losângela (Marieta Severo), a ovelha negra da família. Losângela se une a dois tipos soturnos, Abobrinha (Pascoal da Conceição) e Rato (Matheus Nachtergaele), interessados em demolir o casarão antigo para, no seu lugar, erguer um espigão.
Mágica refinada - O relato de Hamburger procura contemplar algumas diretrizes básicas. A principal, e mais evidente delas, é a luta do bem contra o mal, de rigueur em toda história infantil. A segunda diz respeito à preocupação didática do Castelo e toca, portanto, em temas científicos, como o alinhamento de planetas em determinada época. Só que a ciência, aqui, possui dimensão mágica, já que será posta a serviço de feitiços, tanto do bem como do mal.
A terceira faz o quase intemporal castelo (seus protagonistas adultos dizem ter milhares de anos de idade) pôr o pé no mundo atual. Fala em especulação imobiliária e corrupção política. O personagem Abobrinha acha que a melhor maneira de se locupletar é se candidatando a um cargo público. E quem há de lhe tirar a razão?
A mágica refinada do Castelo é conseguir misturar esses ingredientes com equilíbrio. É cinema convincente, de qualquer ponto de vista que se analise. E, como tal, não prescinde de um elenco de bom funcionamento. O garoto Diegho Kozievitch vai muito bem como Antonino Stradivarius, o Nino. Rosi Campos e Sérgio Mamberti nunca são menos que ótimos como Morgana e Victor. E Marieta Severo faz uma bruxa hilariante no papel de Losângela - a arrivista que quer ocupar todos os espaços. Matheus Nachtergaele e Pascoal da Conceição são dois vilões da pesada. Formam, com Marieta, uma "trinca do Mal" das mais engraçadas.
Caráter democrático - A montagem é rápida e nela se reconhece a mão de Michael Ruman, profissional conhecido por seu sentido de ritmo. A fotografia, de Marcelo Durst, capricha na tonalidade expressionista, que pode deixar os espectadores menores pouco à vontade, pois estão acostumados com as cores lavadas da TV. Para olhos adultos, no entanto, o tratamento visual é suntuoso.
"Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme" não é didático apenas quando fala de ciência. É também quando passa ao público seu recado de fundo. Losângela, a bruxa, não parece ter esse nome por acaso. Ela é monopolista e predatória, por isso não tolera quem não se parece com ela. Essa intolerância em relação ao outro é o mal a ser combatido. Todos os heróis do Castelo - Victor, Morgana, Nino e seus amigos - sabem e gostam de viver na diversidade. Acham que ninguém é melhor do que ninguém e que a arte da convivência passa necessariamente pela aceitação do outro naquilo que ele tem de diferente ou mesmo oposto a nós. Não é pouca coisa como pedagogia para um mundo mais respirável. Esse caráter democrático do Castelo o torna programa obrigatório. Serviço - Castelo Rá-Tim-Bum. Aventura. Direção de Cao Hamburger. Com Diegho Kozievitch, Sérgio Mamberti,, Rosi Campos, Marieta Severo, Mateus Nachtergaele. Duração: 80 minutos. Livre. Distribuição: Columbia TriStar

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