Filme é forte candidato ao Oscar de documentário19/Mar, 15:02 Por Luiz Carlos Merten São Paulo, 19 (AE) - Dizem os especialistas que "Buena Vista Social Club" deve ganhar o Oscar de documentário domingo que vem. A se confirmar, a premiação não apenas reconhece um belo filme, mas levanta algumas implicações simbólicas interessantes. A primeira delas: as imagens de um país até então demonizado voltam a passar pelas telas norte-americanas. Só que desta vez associadas a um valor positivo, e no caso de o filme vencer, sancionadas pelo mais importante prêmio que se concede ao cinema no país. "Buena Vista" não traz apenas algumas imagens e músicas deslumbrantes. É, sobretudo, um passeio pelo tempo. Um vai-e-vem contínuo entre o passado e presente. A estrutura da narrativa é pensada desta maneira. Quem vai realizar a filmagem pergunta aos moradores de Havana onde ficava um certo Buena Vista Social Club, no qual se tocava a música tradicional da ilha. Ninguém mais o conhece. Mas a pergunta, essa espécie de "rosebud" criado por Wenders, conduz aos grandes artistas, até então esquecidos ou semi-esquecidos - Ibrahim Ferrer, Rúben González, Compay II. São homens idosos, cheios de uma misteriosa vitalidade, musicais até a medula, felizes com o que fazem e com a vida que levam. Até serem "redescobertos" por Ry Cooder e Wim Wenders sobreviviam em subempregos. Tornaram-se febre mundial. Vendem discos, organizam turnês, falam pelos cotovelos. Em tempos de predominância da geração-saúde, constituem um escândalo ambulante. Fumam, bebem, jogam e são boêmios. Compay II, do alto dos seus 92 anos, diz que deve sua longevidade ao consumo de bons charutos Montecristo, doses generosas de rum cubano e à manutenção do apetite sexual. É bem possível que muito do sucesso de "Buena Vista" se deva a esse encanto retrô dos velhinhos. Claro, a nostalgia é um sentimento comum do ser humano que, vez por outra, se sente impotente diante do passar do tempo. Mas, pode-se ter como hipótese que sentimentos nostálgicos surjam com mais frequência e intensidade em épocas inóspitas, de insegurança pessoal e financeira, competição acirrada, ritimo de vida desumano. Esses maravilhosos velhinhos viriam de outro espaço imaginário, de alguma época de ouro em que viver seria um doce exercício de alegria. E qual seria essa época de ouro? A Cuba pré-revolucionária. A Havana dos cabarés, da vida noturna frenética. Basta conhecer um pouco a ilha para ver que seu fascínio deriva de ela ser uma espécie de cápsula do tempo em forma de país. Claro, com o incentivo cada vez maior ao turismo, isso aos poucos vai mudando. Mas Cuba ainda é uma espécie de parque temático dos anos 40 e 50. São os edifícos antigos, os velhos Chevrolets e Buicks que teimam em continuar rodando, os bares românticos como o Floridita ou a Bodeguita del Medio, preferidos de Hemingway. É a Cuba cantada por um escritor como Cabrera Infante. É a Cuba que se vê nas paredes do vetusto Hotel Nacional, forradas de fotos de astros e estrelas de Hollywood, que lá estiveram no passado. A Cuba do cabaré Monseigneur, onde se apresentava o mitológico Bola de Nieve, e que preserva o piano onde ele tocava e o smoking que vestia. Enfim, aquela Cuba que os Estados Unidos chamavam carinhosamente de "nosso quintal". É dessa Havana antiga, hoje caindo aos pedaços, que emana a tonalidade ideológica do filme, muito mais que dos cartazes e inscrições em muros que, pateticamente, exibem ameaças aos "señores imperialistas". O formato imaginário de "Buena Vista" se completa com a visita dos músicos a Nova York. O contraste entre a cidade-símbolo da superpotência e a envelhecida Havana é gritante. Mais ainda quando focaliza cubanos deslumbrados com a metrópole e suas vitrines. É uma superposição entre um mundo que foi e aquilo que ele é. Dois símbolos que dialogam e se agridem. Um, o passado, que o vento levou; outro, o presente triunfante. Esse é o palco ideológico sobre o qual se executa a vital música cubana.

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