Filme e assista como quiser
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de agosto de 2010
Omar Godoy<BR> Equipe da Folha 
Em menos de 48 horas Giovani Zilke produziu seu primeiro filme. Fotógrafo à moda antiga, ele sequer havia usado um equipamento digital antes de emprestar a máquina de uma vizinha. Também não sabia manipular o software de edição utilizado para finalizar o trabalho (precisou da ajuda, via webcam, de um amigo que mora em Brasília). Mesmo assim, já é semifinalista de um concurso nacional de ''micrometragens'', o Cel.U.Cine.
Patrocinada por uma empresa de telefonia móvel, a iniciativa premia vídeos com duração entre 30 segundos e três minutos. Só no ano passado, foram mais de 600 filmes inscritos - muitos deles feitos com uma simples câmera de celular. ''O que importa é o artista, não as ferramentas que ele usa'', diz Giovani, de 26 anos. Como ele, milhares de jovens produzem e divulgam na internet, todos os dias, conteúdos audiovisuais dos mais diversos gêneros e formatos.
É a cultura do ''faça você mesmo'' em estado bruto, incentivada pelo acesso facilitado às novas tecnologias e a divulgação instantânea na web. ''Eu não tenho como fazer um longa-metragem. Faço o que posso, do jeito que posso, de forma intuitiva'', afirma Giovani, um catarinense que mora há três anos em Curitiba e não conhece ninguém da ''panelinha'' do cinema local. ''Minha escola é o YouTube'', acrescenta.
A ideia de ''Esfera!'', seu vídeo de estreia, surgiu por acaso. O fotógrafo andava pelo centro da cidade quando encontrou um artista de rua argentino fazendo malabarismo e ilusionismo com uma bola de acrílico. Pediu autorização para registrar a performance e correu para casa finalizar o trabalho no computador. ''Acho que o filme atrai o espectador porque tira ele da realidade'', diz.
Para Giovani, os micrometragens devem ser diferentes, criativos, simples e curiosos. O oposto do que, segundo ele, é exibido hoje na televisão. ''Assista à Globo no domingo e depois me diga se o seu dia não foi perdido'', provoca. De qualquer forma, ele não acredita que a web vá substituir os meios tradicionais. ''As velhas e boas ferramentas, como o livro e o cinema, vão continuar existindo. A internet não é melhor do que elas. É apenas diferente''.
LABORATÓRIO
Coordenadora do Putz - Festival Universitário de Cinema e Vídeo de Curitiba, Letícia Fontanella vem acompanhando de perto a explosão da produção audiovisual. ''A cada ano, os trabalhos vão ficando menos amadores'', conta, com a experiência de quem recebe, há sete anos, material de todo o país. Inclusive micrometragens, que ela vê como uma espécie de ''laboratório''.
''Sinto que o pessoal ainda não consegue contar uma história em menos de três minutos. Por isso os trabalhos curtos acabam sendo mais experimentais mesmo'', afirma. Essa dificuldade, no entanto, não significa que a produção seja pouco profunda. ''Você não tem uma narrativa completa, mas pode deixar margem para a reflexão''.
Na opinião de Letícia, as manifestações artísticas em geral estão se tornando urgentes e velozes, para atrair a geração atual - e dá como exemplo os microcontos, cada vez mais populares no Twitter. Sobre o audiovisual, especificamente, ela chama a atenção para os novos conceitos de captação de imagens e, principalmente, exibição. ''É diferente de ir ao cinema ou ver um filme em casa comendo pipoca. O espectador quer assistir ao vídeo na fila do banco''.


