GRAMADO (RS) - Realizado em Curitiba por equipe composta predominantemente por mulheres, o longa metragem “Nó” teve lançamento nacional na abertura da mostra competitiva do 53º Festival de Cinema de Gramado, na noite de sábado. E foi bem acolhido pelo bom público que lotou o Palácio dos Festivais.

Dirigido pela também roteirista Laís de Melo, o filme conduz o espectador ao universo de Glória, mulher trabalhadora na casa dos quarenta que afinal se separa do marido ausente (ele não é nunca visto fisicamente), mas com forte perfil machista. Ela consegue alugar um apartamento, para onde se muda com as três filhas adolescentes levando o desejo de um recomeço.

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Gloria alterna seus esforços para a nova etapa de vida se desdobrando entre o trabalho como operária em uma fábrica de pipoca pronta e a casa recente. E enquanto tenta fazer desse espaço material e de seu corpo físico um lar de verdade, ela vai ter que enfrentar ainda, em seu local de trabalho, uma delicada disputa por uma vaga de supervisora. Condição que, se por um lado vai garantir melhores condições financeiras para investir no bem-estar daquele núcleo familiar, vai também desgastar a relação com sua melhor amiga e com seu pequeno, mas afetivo grupo de colegas de trabalho.

A difícil conciliação destas circunstâncias existenciais será ainda agravada pela tentativa do ex-companheiro de conseguir a guarda das três filhas.

Com orçamento modesto (cerca de um milhão de reais), apoiada por um roteiro que tem nas sutilezas sua arma mais poderosa e por um elenco de poucos mas consistentes intérpretes, a diretora Laís de Melo foge da estereotipia das habituais narrativas que privilegiam questões de gênero e dá voz, sentimentos e corpos a personagens femininas de carne e osso e alma, convivendo em permanente empatia com o espectador. Em vez abrir espaço a um potencial estado de violência que ronda algumas situações, ela optou por baixar completamente o tom (não a guarda), e trabalhar a latência de um conflito que não tem protagonismo real e efetivo, mas cuja presença está fortemente fixada na ausência ameaçadora do macho. É uma inteligente variação da violência doméstica.

A AIDS EM MINISSÉRIE

Ainda na programação da noite de estreia da mostra gaúcha, a rede de televisão estadunidense (da Warner) HBO apresentou “hors concours” e com forte apoio de mídia o primeiro capítulo inédito (de um total de cinco, todos os domingos de setembro) da minissérie “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”, dirigido por Marcelo Gomes e Carol Minêm.

A coprodução, assinada pelo canal de streaming e pela brasileira Morena Filmes, tem à frente do elenco Bruna Lynzmeyer, Icaro Silva e Johnny Massaro. A trama, sobre um grupo de personagens apanhados em meio à epidemia de aids recém surgida no Brasil, é inspirada em fatos reais e acompanha a história de comissários de bordo brasileiros (de voos para os EUA) que fizeram o chamado “contrabando do bem”: trazer para Brasil o AZT (Zidovudina) então proibido no país. Eram os anos 1980 e 1990,

“Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”: minissérie estreia na HBO no primeiro domingo de setembro
“Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente”: minissérie estreia na HBO no primeiro domingo de setembro | Foto: Divulgação

O medicamento era na época a única saída para os diagnosticados com HIV em estágio avançado, e ainda sem permissão de venda pela Anvisa, que somente foi criada e regulamentada em 1999. Com estreia prevista para 31 de agosto, a intenção da minissérie, segundo seus criadores, é trazer o tema para os dias atuais (morrem no Brasil 10 mil portadores de aids por ano), que a novas gerações, nascidas a partir de 2000, não só não conhecem o que foi a epidemia como nos dias atuais ainda sofrem os males do negacionismo e do estigma, a ausência de informação quanto à prevenção e os vários medicamentos que permitem aos portadores do HIV não apenas sobreviver mas conviver com a doença sem maiores problemas por muito tempo.

* O jornalista é convidado da organização do Festival de Gramado.
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