Filme do Brasil é bem recebido em Veneza
Bem recebido, com muitos aplausos, o representante brasileiro na competição oficial da 58 Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza. ''Abril Despedaçado'', escrito e dirigido por Walter Salles, é a adaptação de um romance do escritor albanês Ismail Kadaré. Salles levou para o sertão nordestino a tragédia familiar sobre poder, honra e sangue que originalmente se passa no interior da Albânia. As duas cópias do filme foram trazidas de Paris, na quarta-feira, dia da exibição. ''Quase não houve tempo para terminar tudo, concluímos o trabalho em cima da hora, sob muita pressão, afinal é grande a honra de representar o Brasil aqui, atendendo convite pessoal do diretor da mostra, Alberto Barbera'', disse Walter Salles durante a conversa informal com os poucos jornalistas brasileiros que cobrem o festival, pouco antes da projeção para a imprensa.
Co-produção entre Brasil, Suiça e França, ''Abril Despedaçado'' foi filmado nas cidades de Bom Sossego, Caetité e Rio das Contas, interior da Bahia. O filme retoma a preocupação de Walter Salles com a questão da identidade nacional, colocada em seus filmes anteriores, especialmente em ''Central do Brasil''. E para isso recorre a uma trama em que introduz elementos de tragédia grega no agreste brasileiro. A violência ancestral, atávica, é permanente na ausência da autoridade. O círculo está sempre em movimento, e sempre fechado: o parente da última vítima de uma família mata alguém da outra, e assim sucessivamente, enquanto sobrar alguém. O sinal para a próxima morte violenta é dado pela camisa do último morto, esticada ao sol no varal: quando o vermelho do sangue amarelar, é hora da vingança seguinte. Mas pode ser que o próximo defunto potencial tenha outros planos, queira viver e dar uma guinada nesta bolandeira de corpos. ''Abril Despedaçado'' tem uma primeira metade de grande força e impacto, com momentos do melhor cinema; mas na segunda parte não mantém a majestade inicial.
Já na concorrida coletiva, o diretor Walter Salles, acompanhado pelo escritor Kadaré, pelos atores Ravi Ramos Lacerda, Rodrigo Santoro e pelo produtor suiço Arthur Cohn, destacou a ''fabulosa universalidade contida no livro, a qualidade mitológica da obra'', definindo a história ''quase como uma fábula, entre a terra e o ar''. Sobre uma possível influência do western americano no filme, levantada por alguém, Salles assume apenas o legado do Cinema Novo, os clássicos russos, o Ermano Olmi de ''Padre Padrone''. Embora exista também a paixão por John Ford e Sergio Leone. E reafirmando o que disse em Cannes há dois anos, o diretor voltou a defender a utilização do video digital: ''é a
democratização da imagem, tão necessária ao cinema''.





