Parece que o diretor de “Faça a Coisa Certa” e outros cults ao longo de fértil e inquieta/inquietante carreira de mais de três décadas, tem a propensão (ou o dom) da oportunidade, mesmo que não se saiba o que veio primeiro, o ovo ou a galinha. Ou, o que dá no mesmo, seu faro para o ativismo mediático ou o racismo genético da sociedade americana. Há apenas alguns dias depois que George Floyd morreu asfixiado, assassinado na rua por um policial em Minneapolis, Lee montava a cena em que Radio Raheem era sumariamente assassinado na rua em 2014 por forças policiais. No curta metragem “3 Brothers: Radio Raheem, Eric Garner e George Floyd”, inspirado em “Faça a Coisa Certa”, Lee formula a pergunta “a História vai deixar de se repetir ?”

Imagem ilustrativa da imagem Filme de Spike Lee é poderoso, mas poderia ser melhor

É disso que fala “Destacamento Blood”. Do mesmo modo que ocorreu na Segunda Guerra Mundial, os negros foram enviados à linha de frente da Guerra do Vietnam sem que, na volta aos EUA, os políticos brancos lhes dessem qualquer coisa em troca além de desprezo e indiferença. É por isso que os quatro veteranos (e mais um auto convidado de ultima hora, o filho de um de deles) regressam à cena do conflito asiático para resgatar os restos mortais de um companheiro e um tesouro em barras de ouro. Depois de tudo, o que querem é cobrar, com décadas de atraso, o serviço prestado a uma pátria que os ignorou. Neste transito, Lee retrata a aventura desses velhos cowboys como se fosse sua versão particular de “Apocalypse Now”, uma espécie de contra discurso racial ao “Rambo” de Stallone e ao “Desaparecido em Combate” de Chuck Norris.

Enquanto isso, “O Coração das Trevas” de Conrad se transforma em “O Tesouro de Sierra Madre” de John Huston, a montagem de imagens de arquivo demonstra a validade do discurso antirracista e o filme, irregular, transbordante e paradoxal ( como costuma ser o cinema de Lee), segue sobrecarregando o espectador com cinismo e lições de moral. Sutileza não é preocupação para Lee, nem nas homenagens que faz ais filmes, nem na exposição da história afro-americana. Também não medo de excessos. O que importa é causa um impacto que que transmita sua mensagem, Para isso, utiliza vários recursos estéticos e narrativos: uma encenação eclética, com cortes que chamam a atenção do espectador e mudanças no formato da tela, dividindo presente e passado. Também com diálogos em que são discutidos pioneiros e ativistas afro-americanos, acompanhados de fotos que interrompem a ação por alguns segundos. O material de arquivo é utilizado pelo diretor, além disso, para construir uma introdução do filme que é o cartão de visita de suas intenções politicas.

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