‘‘O Resgate do
Soldado Ryan’’
dá a largada
para um dos
maiores eventos
do cinema mundial

ReproduçãoCena de ‘‘O Resgate do Soldado Ryan’’, filme que abre a 55ª edição do Festival de VenezaCarlos Eduardo Lourenço Jorge
Enviado especial a Veneza

As dificuldades também estão globalizadas. Gramado passou há pouco por maus momentos, com dinheiro e fôlego em rédea curta. Tempos bicudos. Apesar de segunda colocada na rígida hierarquia dos festivais mundo afora, só perdendo em importância para Cannes, a Mostra de Arte Cinematográfica de Veneza, que começa hoje e termina dia 13, também enfrenta um momento de ajuste neste sua 55ª edição. Menos tempo de duração - 11 dias, contra os 12 habituais - e austeridade financeira. Sinal de uma época de maior rigidez e controle de gastos: uma taxa de 50 mil liras (cerca de 35 dólares) está sendo solicitada através da assessoria de imprensa aos jornalistas credenciados, a título de cobertura de ‘‘custos administrativos’’.
Mas, a despeito do enxugamento, Veneza promete fortes emoções, tanto entre os 19 selecionados da mostra competitiva como entre os convidados para as diversas paralelas e os monstros sagrados nas vitrines hors concours. Como hoje na abertura oficial, por exemplo. Ao badaladíssimo ‘‘O Resgate do Soldado Ryan’’, de Steven Spielberg (que também chega às telas brasileiras), cabe a honra de abrir a mostra. E como Veneza não prescinde de seu mais ilustre filho adotivo, à mais recente comédia de Woody Allen, ‘‘Celebrity’’, foi reservado o privilégio de encerrar o evento no dia 13, fora de competição obviamente, como convém aos consagrados ou aos avessos a concursos. E no meio tempo, os Taviani, Paolo e Vittorio, mostram o novo produto da fraterna e sempre instigante parceria: ‘‘Tu Ridi’’.
Um progresso incontestável na organização do Festival de Veneza: a partir de 1998, o novo estatuto da Bienal prevê que os diretores das diversas seções (Arquitetura, Artes Plásticas, Cinema, Música e Teatro) não mais terão que se ocupar dos aspectos de organização dos eventos, mas somente de assuntos artísticos. Isto significa que este ano o curador da mostra cinematográfica, Felice Laudadio, e outros cinco colaboradores diretos puderam se ocupar inteiramente dos quase 600 longas-metragens e dos 625 curtas de dezenas de países dos cinco continentes. Pelo que se observa a princípio, a equipe trabalhou satisfatoriamente. A expectativa é de um festival com qualidade à altura da tradição, se não por todos os filmes em concurso, mas por muitos e irresistíveis apelos nas duas principais paralelas - ‘‘Notti e Stelle’’ e ‘‘Prospettive’’.
Alguns nomes já são referencial obrigatório no circuito dos festivais internacionais. O iugoslavo Emir Kusturica, nascido em Sarajevo e consagrado por títulos como ‘‘O Dia em que Papai Saiu em Viagem de Negócios’’, Oscar de melhor filme estrangeiro, e o controvertido ‘‘Underground’’, Palma de Ouro em Cannes, está de volta depois de complicado processo de produção. ‘‘Gata Preto, Gato Branco’’ é a história de ciganos e mafiosos, inteiramente falado em dialeto cigano.
O veterano Eric Rohmer, aos 78 anos, prossegue desfiando seus contos. Agora são ‘‘Contes des Quatre Saisons’’, segundo ele bem diferentes daqueles contos morais que o consagraram junto à crítica. Prestígio e status não faltam ao iraniano Mohsen Makhmalbaf, que trouxe ‘‘O Silêncio’’. Segundo ele, um filme sobre música e voz interior, inspirado no poeta persa Khayyam. Do americano Abel Ferrara pode-se esperar sempre algo insólito e polêmico: isto pode ser ‘‘New Rose Hotel’’. A única representação latino-americana fica por conta do argentino Fernando Solanas, com ‘‘La Nube’’. O diretor já foi premiado em Veneza em 85 com o belo ‘‘Tangos, el Exilio de Gardel’’.

mockup