Filme de Sharif decepciona em Veneza
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sexta-feira, 29 de agosto de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza<br> Especial para Folha 2 
Omar Sharif recebeu em Veneza um dos Leões de Ouro pela carreira o outro vai para o produtor Dino de Laurentiis. Merecidos ambos. Mas se o prêmio para Sharif fosse exclusivamente por este seu trabalho mais recente mostrado na seção ''hors concours'', a curadoria não faria se repensasse. ''Monsieur Ibrahim e as Flores do Alcorão'', produção francesa dirigida por François Dupeyron, é um filme que não engrena jamais, apesar de seu argumento atraente enquanto fonte para desenvolver uma interessante dramaturgia. Sharif é o Ibraim do título, velho comerciante muçulmano que mantém pequeno armazém em bairro boêmio de Paris, anos 1960. Moisés, que Ibraim prefere chamar de Momo, é um adolescente judeu que mora nas redondezas. A mãe foi embora e o pai tornou-se um infeliz profissional, com permanente e absoluta convicção. O garoto então cai na vida por vias diversas, mas as realmente aproveitáveis passam pela cama das generosas garotas em prontidão sexual diuturna e pelo balcão de sabedoria varejista de Monsieur Ibraim. A princípio se estranham, mas logo se entendem, e o velho acaba adotando legalmente o garoto a esta altura já órfão o pai, demitido e ainda mais deprimido, se atira do trem para felicidade geral.
O repositório de ensinamentos de Ibrahim para Momo está mais para um desses manuais baratos de auto-ajuda que infestam as estantes do planeta do que para os preceitos do Alcorão. E Omar Sharif não parece nada à vontade num personagem que deve irradiar intenso brilho interior contrastado com a discreta, quase monástica aparência externa. Pensa-se em alguém para o papel e um virtuoso e agora saudoso Anthony Quinn, controlado o excesso de exuberância, tiraria de letra a incumbência. A previsibilidade da história tritura o roteiro, e a insistência nos modismos musicais como demarcação cronológica e não definição social de época é no mínimo lamentável. Ao final, aplausos discretos e respeitosos, só mesmo em reconhecimento a um ator que, entre outras habilidades menos votadas e exibidas ao longo de mais de uma centena de filmes, soube manter os olhos sempre marejados sem derramar uma única lágrima. A propósito: reza a lenda que as mais suntuosas e arrepiantes festas em noites de festivais venezianos de outrora tinham o alto patrocínio do selo mundano Sharif, sempre regadas ao melhor champanhe, a mulheres belíssimas e, óbvio, a memoráveis embates de bridge.
E a organização do Festival de Veneza informa: Nicole Kidman não virá mais, como estava previsto e amplamente anunciado aos quatro scirocco vento sul africano que invade a Itália nesta época do ano, recolhendo de passagem a umidade do Adriático e fingindo refrescar a fornalha. Resultado: choro e ranger de dentes dos paparazzi, já com o dedo no gatilho das câmeras. Quem faz as honras para o fora de concurso ''The Human Stain'' são diretor Robert Benton e os atores Anthony Hopkins e Gary Sinise, já desembarcados.


