Filme de Sebastião Salgado é aclamado em Cannes
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de maio de 2014
France Presse 
Cannes (França) - O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que captou com sua câmera catástrofes humanitárias e ecológicas em todo o planeta, lança uma mensagem de otimismo para salvar a Terra em um belo filme de seu filho Juliano e do alemão Wim Wenders, que estreou na terça-feira em Cannes e foi ovacionado pelo público.
O documentário "O Sal da Terra" apresenta um olhar profundo e íntimo da vida e obra de Salgado, que há 40 anos percorre várias partes do globo testemunhando a fome, os êxodos, guerras e a destruição do planeta, mas também paisagens e territórios virgens, grandiosos.
Apresentado em "Um Certo Olhar", uma das duas seções oficiais do Festival de Cannes, o filme é também uma viagem pelo cérebro e pelo coração de um homem entranhável, que nasceu em 1944 em uma fazenda na cidade mineira de Aimorés, para onde retornou, semeando milhões de árvores para reflorestar a propriedade familiar e a região degradada.
"Já existiam filmes sobre Sebastião, sobre sua fotografia, mas eu queria fazer um filme que nascesse de sua história, de suas experiências, de suas recordações, para chegar ao fundo daquilo que mudou Sebastião Salgado", explicou Juliano, de 40 anos, que confessou o quão "difícil" é ser filho desse grande artista, a quem viu pouco na infância e na juventude.
"Nunca estava lá, estava sempre viajando. Havia uma grande distância entre nós dois. Mas foi graças ao filme que finalmente consegui aceitá-lo e que conseguimos nos aproximar", disse Juliano em uma entrevista concedida à AFP em um café do Palácio dos Festivais, com vista para o Mediterrâneo.
O documentário dá pistas para entender a transformação de Salgado como homem e como artista, que começou depois da sua chegada a Paris, há mais de 40 anos com sua esposa Lélia, para trabalhar como economista de um grande banco internacional e deixar para trás a ditadura militar.
Um dia, uma câmera chegou às mãos de Salgado, que tirou uma foto de Lélia na catedral de Notre Dame. E sua vida mudou para sempre. Em 1973, abandonou o emprego e se lançou em uma carreira como fotógrafo, que o levaria a percorrer o mundo e lhe daria fama e glória. Mas ele também pagou um preço alto, ao testemunhar o lado sombrio da humanidade. O fotógrafo esteve no centro de alguns dos acontecimentos mais trágicos das últimas décadas, como o massacre em Ruanda, lembrou o filho.
'Um homem tímido'
Salgado não estava em Cannes para a estreia de "O Sal da Terra", e sim em Cingapura, para a abertura de uma exposição sobre sua obra. "Sebastião é um homem muito tímido, com muito pudor", explicou Juliano, que começou filmando seu pai em uma viagem que fizeram juntos em 2009 à Amazônia, para "Gênesis", um dos grandes projetos do fotógrafo. Lá conviveram um mês com a tribo Zo'e, que ainda vive na era paleolítica.
"Quando voltamos, Sebastião viu as imagens e ficou muito comovido". E foi nesse momento que pai e filho decidiram fazer um filme juntos.
Wim Wenders, o premiado diretor de "Paris, Texas", "Buena Vista Social Club", se juntou pouco depois ao projeto.
"O Sal da Terra" termina com uma nota de esperança: o retorno de Salgado e Lélia ao Brasil, onde criaram o Instituto Terra, que se tornou um grande projeto ecológico.


