Filme de Ruiz é uma ''ópera''
Realizador de mais de trinta filmes, celebrado em festivais do mundo todo mas pouco visto nas salas, autor de 31 filmes em 30 anos, Raoul Ruiz é um grande amante da literatura. Este chileno de 57, radicado na França desde 75 (o nome na verdade é Raul, mas mudei para Raoul porque ia acabar virando Paul), tem um ritmo de até dois fimes por ano, o que mesmo que quisesse não poderia fazer no Chile, para onde viajo com frequência.
Lá, como em toda a América Latina, um cineasta que trabalha regularmente faz um filme a cada 4, 5 anos. Ainda assim, é o país onde sou mais famoso, ainda que ninguém tenha visto meus filmes. A Folha2 ouviu Raoul Ruiz no Hotel Carlton, em Cannes. A seguir, os trechos mais importantes da entrevista.
Proust no cinema. Tema sempre polêmico. Para alguns, inadaptável, para outros até muito cinematográfico. E quanto ao senhor?
Não é o elemento visual, o lado descritivo que faz um autor cinematográfico. Para mim, o aspecto mais fascinante de Proust tem a ver com seus detalhes aparentemente insignificantes, aquilo que poderíamos chamar de microsituações do cotidiano que se transformam em elementos vitais para a compreensão da obra como um todo. O que de repente parece um fato importante já não é mais no momento seguinte, e inversamente o que às vezes é uma pequeno detalhe resulta numa grande revelação.
O mesmo poderia ser dito sobre os personagens, que se movimentam constantemente?
Exatamente. No cinema industrial de hoje em dia, os personagens são protagonistas, secundários ou figurantes. Proust, ao contrário, sugere misturar tudo isso. Um personagem em primeiro plano se transforma em figurante no instante mesmo em que outro, até então obscuro, assume seu lugar. Os personagens são constantemente levados, aparecem e desaparecem. E todo este jogo de aparecer e desaparecer, em flashback ou não, e a superposição do tempo estavam muito de acordo com a minha visão de cinema.
O senhor chamou atores famosos para compor o elenco principal. Como foi feita a escolha?
Durante a leitura da obra integral, comecei a imaginar rostos de atores para os principais personagens. E deliberadamente fui escolhendo somente atores conhecidos, porque a celebridade deles tem uma dimensão proustiana. Ao contrário de outros filmes, onde o casting de atores famosos pode ser contraproducente, no universo de Proust quanto mais conhecidos melhor eles funcionam.
Nos últimos anos, o senhor vinha dizendo que muitos de seus filmes eram uma preparação para Le Temps Retrouvé. Sem diminuir os outros, este é um trabalho mais ambicioso?
Com toda a certeza. Considero este um filme-ópera, uma sinfonia com coro. E com o coração...Raoul Ruiz: considero este um filme-ópera, uma sinfonia com coro e com o coração...Entrevista a Carlos
Eduardo Lourenço Jorge





