O mais antigo certame de filmes do mundo quer fazer as pazes com a arte e reconquistar prestígio
ReproduçãoNicole Kidman e Tom Cruise em ‘‘De Olhos Bem Fechados’’: Kubrick explora o sexo e a morte no filme que se passa num ambiente lúgubre de fim de século em Nova York
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Veneza para a Folha2
Doses generosas de emoção. Esta deve ser a tônica hoje à noite durante a cerimônia de abertura da 56ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematográfica de Veneza, na Sala Grande do Palazzo del Cinema, na ilha do Lido. A viúva Christiane e as duas filhas de Stanley Kubrick, e os atores Tom Cruise e Nicole Kidman assistem à premiére européia de ‘‘Eyes Wide Shut’’ (De Olhos Bem Fechados), o último filme do diretor falecido no dia 6 de março. O empenho da direção da mostra em abrir a programação oficial - mesmo hors- concours - com um peso pesado da categoria de Kubrick já existia bem antes da morte do cineasta, não se caracterizando portanto nenhum oportunismo post-mortem. E o acerto com a Warner para este pré-lançamento não poderia ter vindo em melhor momento.
Tão logo terminou o festival do ano passado, o então diretor Felice Laudadio foi sumariamente demitido. Motivo: sua excessiva simpatia para com certa produção em concurso que, se por um lado garantia glamour, celebridades e mídia ampla e irrestrita, por outro deixava desguarnecido um flanco estratégico na tradição do festival: a qualidade de boa parte dos títulos selecionados para a resenha competitiva de longas-metragens, no mínimo duvidosa. E, não menos comprometedor, uma certa desarrumação observada ao longo dos programas, coisas básicas de organização, como sessões superlotadas, exibições superpostas, certa displicência no trato diário com uma imprensa espremida entre o desconforto e a perplexidade.
A Bienal de Veneza, entidade que mantém o festival de cinema, entre outras atividades artísticas, chamou para as necessárias mudanças de rota o crítico, ensaísta e professor Alberto Barbera, com respeitável cacife depois de dar suporte e respeitabilidade a um festival de cinema jovem de Turim. Barbera tomou posse e logo imprimiu novo curso. Para chegar aos 126 filmes (88 longas e 38 curtas e médias) que participam este ano do festival, a comissão de cinco selecionadores ampliou o leque em relação às últimas jornadas. No total, foram considerados - vale dizer, admitidos - 900 longas-metragens e 600 curtas. Os títulos afinal aprovados foram distribuídos em seis seções oficiais. A principal é ‘‘Venezia 56’’, onde se inscrevem o filme de abertura, o filme de encerramento, os fora de concurso e a competição internacional de longas- metragens de autores. É nesta última que se percebe com maior nitidez o dedo de Barbera.
Segundo ele, a ênfase para este reinício foi evidenciar ‘‘tendências diversas, contrastantes mas não necessariamente contraditórias. Ao lado de autores internacionalmente consagrados, há um número considerável de jovens diretores emergentes, o que faz dessa edição da Mostra talvez uma das mais ricas em termos de abertura e do novo, com a ambição de refletir a complexidade, a diversificação, a fragmentação do cinema contemporâneo’’.
Pelo menos no papel, números e nomes dão sustentação às ótimas intenções desta primeira gestão Barbera e autorizam expectativa mais otimista. Entre os 18 que estão no páreo principal, 12 nunca tinham participado da mostra competitiva e, entre esses, dois fazem a estréia no longa. Entre os habitués estão o chinês Zhang Yimou e o iraniano Abbas Kiarostami. Mas júbilo e ansiedade antecipados à parte, nunca é demais lembrar que, mesmo apostando no inovador, no independente ou no experimental, a qualidade nem sempre acompanha aquilo que simplesmente marcha contra a corrente do produto comercial. Nem todo dia é dia de ‘‘Dogma 95’’.
Dois convidados ilustres e sempre envolventes não devem dar para o incenso. Woody Allen sacode o Lido no domingo com a primeira exibição mundial de seu novo filme, ‘‘Sweet and Lowdown’’, com Uma Thurman e Sean Pean. Como reza o folclore veneziano, Allen vem mas não vem, isto é, fica na cidade mas não dá as caras nem para uma coletiva. Mas é possível esbarrar nele num trajeto veneziano menos óbvio. Já Martin Scorsese, que adora estar disponível para uma conversa quando o assunto é (adivinhem?) a assinatura principal nos créditos de ‘‘Il Dolce Cinema’’, primeira parte de um documentário sobre o cinema italiano, ao qual, sem nenhuma dúvida, o cinema dele, Scorsese, deve muito.
Para o Brasil resta o consolo de duas participações, ambas fora de concurso. Julio Bressane, nosso mais insigne underground, ou o histórico rebelde udigrudi dos anos 60 e 70, foi convidado para a seção paralela ‘‘Nuovi Territori’’, um nicho específico criado para obras em cinema ou vídeo que são intérpretes da multiplicidade de meios e formas de expressão característicos da pesquisas de nova linguagens no cinema. O filme é ‘‘São Jerônimo’’, que em seguida ao festival já tem data marcada de exibição no Vaticano. O outro representante do País é ‘‘Volte Sempre Abbas’’, curta de 6 minutos de Renata de Almeida e Leon Cakoff, os dois principais nomes por trás da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme também está na mostra ‘‘Novos Territórios’’
O time da casa é até considerável, com dois candidatos na mostra competitiva, 14 longas distribuídos em diversas paralelas e 7 curtas e médias. Ano passado o italiano ‘‘Cosi Ridevano’’, de Gianni Amelio, foi escolhido o melhor longa. O júri que vai atribuir os Leões aos melhores de Veneza-99 é presidido pelo bósnio Emir Kusturica, ele mesmo um colecionador de troféus no circuito nobre dos festivais europeus (Cannes-Veneza-Berlim). Os companheiros de julgamento são os diretores Marco Bellochio, Arturo Ripstein, Maggie Cheung, Cindy Sherman, os críticos Shouzou Ichiyama e Jean Douchet, e o ator Jonathan Coe.

Filmes em concurso
- ‘‘Nordrand’’ - Barbara Albert (Áustria)
- ‘‘Uma Semana na Vida de um Homem’’ - Jerzy Stuhr (Polônia)
- ‘‘Appassionate’’ - Tonino De Bernardi (Itália)
- ‘‘Topsy-Turvy’’- Mike Leigh (Inglaterra)
- ‘‘Une Liaison Pornographique’’ - Fréderic Fonteyne (Bélgica/França)
- ‘‘Holy Smoke’’ - Jane Campion (USA)
- ‘‘Pas de Scandale’’ - Benoõt Jacquot (França)
- ‘‘Mentiras’’ - Jang Sun Woo (Coréia do Sul)
- ‘‘Mal’’ - Alberto Seixas Santos (Portugal)
- ‘‘Le Vent Nous Emportera’’ - Abbas Kiarostami (Irã/França)
- ‘‘No One Less’’ - Zhang Yimou (China)
- ‘‘The Cider House Rules’’ - Lasse Hallstrom (USA)
- ‘‘A Domani’’ - Gianni Zanasi (Itália)
- ‘‘Rien a Faire’’- Marion Vernoux (França)
- ‘‘Dezessete Anos’’ - Zhang Yuan (China)
- ‘‘Crazy in Alabama’’ - Antonio Banderas (USA)
- ‘‘Le Vent de la Nuit’’ - Philippe Garrel (França)
- ‘‘Jesus’Son’’ - Alison MacLean (USA)

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