São Paulo, 06 (AE) - Pelos números disponíveis até agora
parece que "Orfeu" vai bem de bilheteria. Boa notícia, em especial num momento em que é difícil conciliar mercado e qualidade. Caso se confirmem as previsões, Cacá Diegues dividirá com poucos realizadores (um, na verdade, Walter Salles, diretor de Central do Brasil) a proeza de sensibilizar tanto o público quanto os analistas. Não que "Orfeu" tenha sido, como "Central do Brasil", quase unanimidade de crítica. Pelo contrário. O filme foi hostilizado em razão de detalhes que, vistos em perspectiva, parecem periféricos, como a insuficiência do par central, Patrícia França e Toni Garrido, uma Eurídice e um Orfeu acusados em coro de baixa voltagem dramática. As reservas, justas que sejam, têm por efeito cegar os críticos para alguns aspectos notáveis do filme. Vêem o detalhe, perdem o conjunto. Aquele caso típico de enxergar a árvore sem saber que ela faz parte de uma floresta.
"Orfeu", em seu conjunto, merece apreciação mais aberta. Tomemos apenas um dos seus aspectos. Cacá Diegues tem dito, em entrevistas, que a favela é o mais paradoxal dos laboratórios desta sociedade. Infâmia social para seus moradores é, ao mesmo tempo, reserva de extraordinária criatividade popular. Expressão exemplar da carência, tornou-se berço de uma das melhores músicas do mundo. Regida pela exigente dialética da falta, explode em generoso excesso na avenida durante o carnaval. Esse paradoxo vivo tem sido, de hábito, tratado ora por um ora por outro desses pólos antagônicos.
Nos primórdios do Cinema Novo a favela foi retratada em preto-e-branco. Era como se os cineastas só pudessem perceber a miséria - e o potencial revolucionário que crescia no caldo de cultura da injustiça -, sem enxergar que, muitas vezes, a dureza das condições materiais torna-se estímulo para a criatividade. Do outro lado, havia a representação idílica dos morros. Lugar onde se é irresponsavelmente feliz, se ama e se samba, pouco importando que as pessoas estejam morrendo de fome enquanto afinam os tamborins.
O antecessor de Cacá, "Orfeu Negro", do francês Marcel Camus, é o mais significativo emblema dessa atitude. Sintomático que tenha feito imenso sucesso mundial e seja lembrado até hoje, apesar de produzido em 1959. Ainda pinta, com perfeição, o retrato do Brasil que certo tipo de turista deseja ver. Alegre, colorido, pobre mas digno, alienado. Cantando e dançando enquanto a "parte séria" do mundo, aquela que conta, resolve seus negócios.
Cacá Diegues teve a inteligência de juntar as duas pontas da contradição e fazê-las interagir em equilíbrio instável, que é como ocorre no País concreto. Por isso convivem a beleza da Marquês de Sapucaí com o inferno dantesco do qual Orfeu procura resgatar a sua Eurídice morta. O inferno e o paraíso; o carnaval, como avesso do mundo, com seus barões famintos e napoleões retintos. O País de "Orfeu" situa-se na linha de força dessas contradições cruzadas. O Brasil real, não o Brasil do real.

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