Filme custou apenas R$ 120 mil
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quarta-feira, 09 de junho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 10 (AE) - Quase um ano depois de sua exibição no Festival de Gramado, o ótimo "Amores", de Domingos Oliveira
chega enfim aos cinemas de São Paulo. O filme estreou no Rio no fim do ano passado. Passou por outras capitais antes de chegar à cidade. Oliveira critica a distribuidora Riofilme. Destaca a impotente boa vontade do presidente da empresa, José Carlos Avellar, mas diz que a Riofilme não tem poder nenhum de barganha para conseguir boas salas nem sabe como lidar com um produto diferenciado como Amores.
Pois "Amores" é um produto diferenciado no panorama do cinema brasileiro. Oliveira fez um filme assumidamente de baixo orçamento. "Planejei a estética em função do custo baixo." O filme foi colocado na lata por apenas R$ 120 mil. Foram três semanas de rodagem e, embora o produto final dê a impressão de informalidade, Oliveira diz que a estética de Amores foi planejada nos mínimos detalhes.
Ele teoriza um pouco. Diz que há duas maneiras de se fazer um filme. Há o cinema, propriamente dito, em que câmera fica colocada no lugar em que o diretor gostaria que ela estivesse, de forma a passar despercebida, e há a câmera intrusa que, a exemplo do jornalismo e do documentário, se introduz nas cenas. Ele trabalhou mais na segunda opção.
Há cinco anos Oliveira vive este projeto, que começou no teatro, com a colaboração de Priscilla Rozenbaum. Foi um ano de preparativo, dois de palco, outro de filmagem e pós-produção e agora mais um ano de estrada com o filme. Embora ele goste de trabalhar com o universo da classe média, nega que "Amores" esteja reduzido tão-somente a esse segmento da sociedade. "Trabalho com problemas existenciais que são universais", afirma. Vê semelhanças entre a sua proposta e a dos diretores do documentário dinamarquês "Dogma". E causa polêmica dizendo que Festa de Família tem "a melhor fotografia dos últimos anos".
Apesar da informalidade, o grau de improvisação foi controlado. Os diálogos são os da peça, não os do início, mas do fim, aqueles que os atores foram definindo como os mais adequados no palco. Trabalham ele, Priscilla e quase todo o elenco do teatro. A novidade no cinema é Maria Mariana, filha de Oliveira, que faz sua filha no filme. Ela está no centro de toda a ação. Em todo o lugar em que "Amores" foi apresentado, Oliveira percebeu que o filme se comunica bem com o público. Mesmo assim, não ganha circuitos grandes e termina reduzido ao gueto das salas meio alternativas.
Admirador de Fellini e Woody Allen ("Amores" já foi chamado de "Woody Allen da zona sul"), Oliveira está desanimado com a situação atual do cinema no País. Diz que é um artista, não um captador de recursos. "A Lei do Audiovisual só serve para amigos de banqueiros", observa. Embora de forma limitada, resolveu o problema na ponta da produção. Mas permanece o trauma da distribuição. "Não tenho dinheiro para mídia e, se não tenho mídia, meu filme não interessa aos exibidores." Eles não dão tempo ao público de fazer o boca a boca. "Tiram logo de cartaz, é frustrante."


