O mercado de trabalho está desolador. E em “A Única Saída/No Other Choice” (em exibição no Cine Ouro Verde a partir de segunda-feira, 26), o mais recente filme do visionário e polêmico cineasta sul-coreano Park Chan-wook, a situação é absolutamente letal: uma demissão leva ao assassinato nesta tragicomédia sombria, uma adaptação do best seller “The Ax” (1997) do americano Donald Westlake. Mas, fervilhando sob a superfície desta comédia de erros aparentemente irreverente, reside uma profunda e mordaz crítica com infinito desprezo pelo capitalismo.

Man-soo (Lee Byung-hun) tem tudo. Uma casa perfeita, uma bela esposa, um casal de filhos e dois adoráveis golden retrievers. “No Other Choice” apresenta a família enquanto desfrutam de uma refeição juntos no quintal, um presente da indústria de papel onde Man-soo trabalha há 25 anos. Ele só percebe, depois de receber a má notícia, que o presente é o sinal revelador de uma demissão iminente. A dele. Conseguir um novo emprego em sua área cada vez mais competitiva se mostra um desafio, com oportunidades de trabalho cada vez menores e uma concorrência acirrada.

Com as contas se acumulando, forçando a mudança dos pets dos filhos e a necessidade de sua esposa, Mi-ri (Son Yejin), arrumar um emprego para ajudar a sustentá-los, Man-soo fica tão determinado a continuar em sua linha de trabalho que decide eliminar (fisicamente) a concorrência pela última vaga de emprego viável na empresa de papel.

O que começa como uma quase paródia da felicidade doméstica lentamente se desfaz em um desenrolar sombriamente engraçado, às voltas com cadáveres. Lee Byung-hun é magistral como este homem desesperado, cada vez mais perdido; este homem que não é um assassino por natureza, mas através da paranoia e do desespero, se transformará de um amador atrapalhado em um profissional determinado.

Ainda mais impressionante é a maneira como Park Chan-wook enquadra a situação desagradável de Man-soo com simpatia, mas com honestidade crua; este não é um filme em que devemos torcer por suas maquinações assassinas.

É uma crítica calculada ao capitalismo, ou melhor, o plano de Man-soo é um subproduto dele. A identidade de sua família, como a da maioria, está intrinsecamente ligada aos bens materiais que compram ou às caras aulas de dança ou música. Essa tensão aumenta até os fotogramas finais, com Park Chan-wook mirando diretamente no papel da inteligência artificial em desestabilizar ainda mais o mercado de trabalho: eis o desfecho desta fábula mordaz e bem-humorada.

“No Other Choice” também se destaca como um dos filmes visualmente mais deslumbrantes do ano. Park Chan-wook encontra maneiras criativas de intensificar com estilo a monotonia da vida suburbana. Planos únicos, zooms emocionantes, cortes e transições inteligentes, takes impressionantes e o trabalho de câmera primoroso do diretor de fotografia Kim Woo-hyung enriquecem a tensão dramática a um alto nível.

A comédia aparentemente simples de Park Chan-wook prova ser tudo menos isso. Superficialmente, é uma comédia de erros deliciosamente sombria que mostra um homem de família atrapalhado em meio a um assassinato, enquanto luta para manter esta família unida. Logo abaixo dessa superfície, fervilha uma justa condenação do capitalismo, mas que nunca descamba para o moralismo graças à sutileza e ao refinamento da comédia proposta por Chan-wook. Isso proporciona uma experiência desarmante e quase fantasiosa que atinge em cheio o espectador com um soco no estômago quando ele menos espera

É impossível não traçar um paralelo com o francês Costa-Gavras, que em 2005 explorou premissa semelhante no longa “O Corte”, baseado no mesmo romance já citado, “The Ax”, de Donald Westlake. No entanto, a diferença fundamental reside no humor corrosivo de Chan-wook, que mergulha na miséria do instinto de sobrevivência com uma meticulosidade e atenção aos detalhes que parecem únicas no novo cinema sul-coreano (vide “Parasitas”). Na sua ótica, a descida de Man-su ao inferno não é uma tragédia convencional, mas uma farsa; uma piada de mau gosto que o destino – ou o sistema – reservou para ele.

O filme disseca diferentes facetas da degradação: a descida à humilhação para manter as aparências, a autoexploração para implorar pela condescendência alheia e o uso de meios criminosos para ganho pessoal. Essas são expressões da miséria humana enraizada em uma máquina social que perdeu sua humanidade há muito tempo.

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